A borracha é nossa

Entrevista:
Marcos Vinicius Neves

O professor aposentado da UFAC (Universidade Federal do Acre) Dr. Pedro Martinello é o responsável pela formação de diversas gerações de historiadores e professores acreanos. A sua tese de doutorado A "Batalha da Borracha" na Segunda Guerra Mundial e suas conseqüências para o vale amazônico é referencia obrigatória para todos que estudam o fenômeno social conhecido como a "Batalha da Borracha". Apesar dessa especialidade do Prof. Dr. Pedro Martinello, os muitos anos de cátedra e pesquisa lhe deram uma invejável visão de conjunto dos diversos momentos por que passou a história e a historiografia acreana. Nessa entrevista ele fala sobre aspectos gerais da história e aponta o interesse do mercado internacional pela borracha brasileira como um dos fatores que explicam a Revolução Acreana.

Como pesquisador da Segunda Batalha da Borracha, o senhor tem uma idéia formada sobre a historiografia do Acre e o significado histórico dos episódios que constituíram a Revolução Acreana...

Pedro: Bom, há muitas implicações no caso. No começo a gente nota o interesse internacional sobre o Acre, devido principalmente à borracha que começava a ser muito procurada. A demanda dos mercados no final do século – período em que a indústria automobilística nos Estados Unidos, por exemplo, teve um grande incremento - exigia muita borracha e foi aí, vamos dizer assim, que começou também o interesse da Bolívia em relação ao Acre. E não só da Bolívia mas também de estados como Pará e Amazonas que eram os grandes beneficiários de toda essa questão da renda fiscal.

Daí o interesse do Amazonas, por exemplo, em financiar parte dessas campanhas?

Pedro: É. Na questão com Plácido de Castro, por exemplo, foi o governo do Amazonas quem praticamente subsidiou toda a campanha. E Plácido de Castro foi uma figura interessantíssima... desperta muitas interrogações. Dizem, por exemplo, que ele tinha também interesses particulares aqui no Acre. Mas certamente a campanha dele foi heróica...

Heróica?

Pedro: Sim, num nível dos heróis românticos do final do século passado para o começo deste. No século passado, nós tivemos o Garibaldi, o herói dos dois mundos, desses que sempre aparecem. Em uma escala de heróis, eu acho que o Plácido de Castro pode ser colocado no nível dois.

Mas a gente sabe que a campanha daqui não foi uma guerra, foram algumas escaramuças...

Pedro: É, e às vezes a gente exagera (risos).

Fala-se que os Exércitos de Plácido de Castro isso, os exércitos de Plácido aquilo... Mas a verdade é que havia nesse tempo muito apreço pela estratégia militar: desde a primeira guerra, os grandes estrategistas do exército alemão... Era esse clima que estava em volta.

Por que o governo brasileiro custou tanto a reagir frente às ameaças do imperialismo norte-americano em relação a questão do Acre. ?

Pedro: Havia aí uma questão muito séria. O Barão do Rio Branco tinha assumido a chancelaria brasileira - ele foi o primeiro ministro das relações exteriores, em 1902 – e estava vendo as coisas sobre um outro prisma. Ele foi, por exemplo, o primeiro a ter uma antevisão daquilo que iria ser a grande potência do século 20, entende ? Ele fez de tudo para redirecionar a influência britânica, colocando o Brasil sob a influência americana. Ele praticamente fez uma aliança não escrita com os Estados Unidos onde o Brasil se obrigava a dar apoio irrestrito às pretensões dos Estados Unidos no Pacífico e no Caribe.

Em contrapartida...

Pedro: Os Estados Unidos fechariam os olhos às pretensões do Brasil na América Latina. Você vê que em 10 anos de mandato, o Barão do Rio Branco conseguiu anexar ao Brasil mais de 640 mil quilômetros quadrados de terras vizinhas. Só não foram anexadas as terras do Chile e do Equador porque não fazem fronteira com o país.

Tudo com beneplácito norte-americano?

Pedro: Isso mesmo. Não foi à toa que o Barão do Rio Branco se destacou como maior jurista internacional. Ele, o Euclides da Cunha, o Joaquim Nabuco, o Assis Brasil e outros mais... Todos foram considerados grandes juristas internacionais. Quando eu fui para os Estados Unidos, o meu professor mandou fazer a minha dissertação sobre o Barão do Rio Branco. Mas naquele tempo, eu não atinava para a importância do Barão Rio Branco e aí, eu perguntei: "Mas professor, Barão do Rio Branco teve alguma importância para o Brasil?" Ele disse: "Meu filho, tu não sabes da missa a metade"... A figura do Barão era tão monstruosa que, no Brasil, primeiro havia o presidente; depois, o Barão do Rio Branco - o Itamarati era uma autarquia, eles não se submetiam a ninguém...

Então ninguém mandava no Barão do Rio Branco?

Pedro: Sim, devido à força, à presença internacional que ele tinha. Ele trabalhou dentro da embaixada americana, morou na Suíça... Uma capacidade impressionante. E ninguém me tira da cabeça que ele tinha a mesma filosofia, por exemplo, de Bismarck, dos alemães daquela época. Porque ele viveu na Alemanha, em Berlim, em Londres... No final do século ele estava por lá ainda.

Então de uma certa forma, Rio Branco também tinha concepções imperialistas pro Brasil?

Pedro: Sem dúvida. Ele e o pai dele anexaram ao Brasil 1 milhão e 40 mil quilômetros quadrados, você acha que isso é arranjo de fronteira ?

Uma coisa que não consigo entender é que com o estabelecimento do Bolívian Syndicate, que foi antes do Barão do Rio Branco, os Estados Unidos estiveram muito perto de conseguir, efetivamente, um enclave territorial dentro da Amazônia brasileira. O que teria impedido a instalação desse empreendimento internacional?

Pedro: Eu acredito que o que impediu foram as demarches (as iniciativas diplomáticas), as conversações... Você sabe que naquele tempo havia muito essa questão da diplomacia secreta. Então já havia entendimentos do governo brasileiro, por debaixo dos panos, com o governo americano no sentido de esfriar o problema.

Ganhando tempo...

Pedro: Sim, ganhando tempo até o novo contexto com a posse do próximo presidente.

Agora em relação à Revolução Industrial e ao Imperialismo, o que a gente percebe é que no Brasil havia uma força muito grande dos cafeicultores...

Pedro: É verdade.

Em que medida se pode aventar a hipótese de que a indiferença de Campos Sales em relação ao Acre tenha se dado por força desse conjunto deoligarquias regionais no Brasil?

Pedro: Havia realmente esse problema. Tudo ia praticamente para os cafeicultores. O acordo, por exemplo, lá de Taubaté, favoreceu demais os cafeicultores. E a Amazônia, apesar de estar dando muito dinheiro com a borracha, que era o segundo produto de exportação na época, não era muito considerada porque a oligarquia da Amazônia era uma oligarquia cabocla.

Não fazia parte da elite governante?

Pedro: Não, não fazia parte. Tanto que um ano depois daquele Plano Pedro Toledo, pra reativação da borracha, acabaram com ele no congresso. O próprio congresso acabou com o plano, não deu as verbas... E isso devido a pouca força da oligarquia daqui.

A gente sabe que durante a Revolução Industrial não foram só a Inglaterra e os Estados Unidos que se utilizaram da borracha brasileira. Que outros países se beneficiaram dessa matéria-prima?

Pedro: A Alemanha foi um deles. Hamburgo era um porto muito importante para a desova da borracha. Na Associação Comercial do Amazonas, por exemplo, durante muitos anos os cargos de presidente e secretários foram ocupados por judeus alemães.

A Revolução Industrial do final do século 19 atingiu, principalmente, que países?

Pedro: Olha, ela foi praticamente uma segunda Revolução Industrial - que começou em 1875 – da qual a gente está se beneficiando até hoje. Porque os grandes inventos se deram nesse momento. Nós tivemos por exemplo, o começo do uso do petróleo, da eletricidade, da posterização, os progresso da medicina, o avanço da própria borracha como uso industrial... Logo depois de 70, 75, houve todas essas invenções que a gente se beneficia até hoje: o cinema, a luz elétrica, tudo começou nesse momento.

Então atingiu praticamente a Europa inteira, o mundo todo?

Pedro: Sim, e nesse momento houve o grande desenvolvimento industrial da Alemanha, porque a Alemanha começou atrasada não é? E qual foi a sua vantagem? Enquanto as fábricas da Inglaterra já estavam quase obsoletas, a Alemanha entrou na revolução industrial com numa tecnologia super moderna. Então a Alemanha começou a produzir eletricidade, carvão, ferro, mais do que França, Inglaterra e Bélgica juntos. Foi o grande Boom industrial na Alemanha também, por isso acho que essa segunda Revolução Industrial foi mais importante do que a primeira.

Como o senhor vê a importância da gente discutir essa questão da Revolução Acreana?

Pedro: Acho importante. Esse movimento atual para passar o Acre a limpo é um anseio de todo cidadão. Estou, praticamente, há trinta anos no Acre e sempre sonhei com isso. Eu acho que essa vai ser a segunda Revolução Acreana, assim como houve a segunda Revolução Industrial...

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