Elson Martins

As expressões "Governo da Floresta" e "Florestania" ampliam nossas esperanças de construir uma sociedade amazônica original inspirada na história, na cultura e na vocação lúdica dos nossos espaços. Eu as percebo como fachos de luz clareando os varadouros da nossa identidade. Naturalmente, tinham que ser cunhadas no Acre, onde, acredito, está concentrada a mais assumida consciência dos povos da floresta. Rezo (força de expressão) para que não sejam banalizadas e não se tornem rótulos de sentimentos descolados dos nossos sonhos reais.
A equipe do Jorge, muito competente, acertou em cheio quando formulou a política de comunicação do Estado atrelando-a às ações da Educação e da Cultura. É por aí que vamos poder avançar com a "florestania". Eu cá com meus botões, fico imaginando o quanto podemos tirar proveito do isolamento e acanhamento históricos para fazer nossa revoluçãozinha cultural de barranco. Talvez um bom começo seja modificando a linguagem dos anúncios e a escolha da mídia para que as novas gerações se liguem na mensagem. Quanto menos a gente lembrar a estética (ou a lógica) dos colonizadores, sejam eles europeus ou brasileiros do centro-sul, ou americanos do norte, melhor. Da festa deles, a do "descobrimento", podemos aproveitar para "descobrir" o quanto podemos ser felizes valorizando as nossas "diferenças".
A linguagem que nos serve tem que ter alma, o som da mata, o brilho das corredeiras. Penso em mil formas de dizer o que não costumamos dizer mas sentimos, utilizando mensagens que surpreendam por serem pensadas de coração para coração. Penso na poesia substituindo os discursos tecnicistas. Penso nos gestos que deixaram de ser comuns entre nós, mas que ainda alimentam o dia a dia dos humildes e forjam, como no passado, a têmpera dos que fizeram e fazem a nossa civilização amazônica. Penso em estátuas esculpidas em troncos de acapú lembrando a bravura e a consciência do cacique Ajuricaba. E penso na dor, na saudade, na solidariedade dos seringueiros embrenhados na floresta, tecendo sentimentos que atravessam cipoais, copas, pântanos, corredeiras para recriar a vida.
Bem que podemos inundar as escolas, templos, feiras, repartições, vilas - com cartilhas, folhetos, cordéis, produções baratas de uma memória cara a todos nós; ensinar nossos jovens a tecer banes com fibras da bananeira e das palmeiras, com a arte indígena, com o compromisso revolucionário de enxergar o encontro mágico do homem com a natureza. Que tal espalhar pelas esquinas, ou em faixas que vão de uma margem a outra dos rios, ou em painéis esticados num tronco de samaúma, os versos de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto? A comparação que o poeta faz de um recém-nascido das caatingas: "belo como um caderno novo quando a gente principia". Quem de nós não entende essa sensação que vivemos na infância?
É preciso navegar e é preciso viver, mas é preciso também mudar o discurso. O Governo da Floresta não vai segurar o resultado do que está propondo, a mudança, com o discurso gasto dos que perderam o poder mas o querem de volta. Ou mesmo com o discurso novo dos que nunca enfiaram o pé na lama. Devemos juntar as sabedorias, as descobertas tecnológicas com as reflexões acadêmicas e a vivência dos povos da floresta, agitar e servir. É dessa mistura, bem dosada, que vamos obter o pacto de fé, faca amolada, para esculpir o homem "florestino".



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