Reportagem: Tainá Pires
Fotos: Pedro Ferreira

Pomadas, chás e garrafadas feitas com produtos da floresta têm sido cada vez mais procurados por quem precisa fugir dos caros tratamentos da medicina convencional. É crescente o interesse pelas lojas especializadas na venda e preparação de remédios caseiros, que custam entre R$ 1 e R$ 25. Os chamados "raizeiros" comemoram a expansão do mercado de trabalho.
Raimundo Nonato Pereira da Silva, 34 anos, o "Dr. Raiz", é um dos mais procurados em Rio Branco. Ele herdou dos pais nordestinos o interesse pelas plantas. "A floresta possui tudo o que o homem precisa", diz ele, se referindo principalmente à cura através de ervas e raízes.
Nascido no seringal Aquidabam, na colônia Santa Rosa, a 12 km de Xapuri, Raimundo veio para a capital em busca de uma vida melhor. Antes de limpar seringueiras em uma fazenda, onde aprendeu muito sobre o poder curativo das plantas, sobreviveu trabalhando como cobrador de ônibus, garçom e funcionário público. Um emplastro natural à base de leite de apuí, para tratar de uma enfermidade na coluna vertebral, abriu-lhe as portas para uma nova vida.
Curado completamente da doença, há três anos o Dr. Raiz abriu sua própria loja. A Casa das Plantas Medicinais Milagre da Floresta é freqüentada principalmente por pessoas de baixa renda. Há clientes de outros estados que recebem atendimento por telefone.
"Já atendi gente com reumatismo, problemas nos rins e até epilepsia que ficou curada com esses tratamentos", diz Raimundo, que trabalha com 250 receitas diferentes. As mais procuradas são as garrafadas para impotência sexual, problemas nos rins e no fígado.
Metade das raízes, ervas e outros produtos com que são feitos os remédios é extraída da floresta amazônica. o restante vem de outros estados do Brasil e de alguns países vizinhos.
O raizeiro mais antigo da Praça da Bandeira, Manoel Gentil Brilhante, trabalha com remédios caseiros há 29 anos, quando eles ainda eram desacreditados pela maioria da população.

Brilhante: persistência recompensada
Natural de Apudi, pequena cidade próxima de Natal (RN), Brilhante veio para o Acre com a mãe, aos 17 anos. Para ajudar nas despesas domésticas, ele vendia ervas e raízes de porta em porta. O trabalho como despachante de castanha lhe possibilitou reunir o dinheiro com o qual comprou uma banquinha na Praça da Bandeira. Sem outros recursos para adquirir as mercadorias, Manoel lembrou das ervas e raízes vendidas em seu estado, mas esbarrou em outro problema: a maioria das pessoas preferia comprar medicamentos farmacêuticos.
"Mangavam de mim e perguntavam: quem vai comprar casca de pau?", lembra ele. O raizeiro persistiu na idéia e com o tempo seus produtos passaram a ter aceitação.
Brilhante nunca estudou, mas consegue ler e somar. E acredita possuir um dom. "Desde pequeno já diferenciava as plantas e sabia qual a serventia de cada uma delas", diz ele.
Quando o governo substituiu o cruzeiro pelo real, o raizeiro se endividou em R$ 13 mil. Pa-ra pagar a dívida, comprou um fusca e foi vender suas ervas de casa em casa, enquanto a filha tomava conta da banquinha. Aos 60 anos de idade, ele se diz gratificado pelo que faz, pois foi vendendo ervas que conseguiu criar os cinco filhos.

Mudando para melhor
Outro ponto conhecido na Praça da Bandeira é a Casa das Ervas, que antigamente se chamava Buraco do Coelho. No local eram vendidos produtos de umbanda, mas desde 1999 são comercializadas ervas e raízes.
Falcão Fernandes Barroso ajuda a mãe a vender as plantas medicinais. "Ela sempre quis substituir os produtos de umbanda por ervas, mas só no ano passado, com a morte de meu pai e a melhoria das vendas de medicamentos naturais, foi que conseguiu", diz Falcão.
José Nogueira Queiroz, 24, também está mudando de ramo. Os produtos de umbanda que vende no Cantinho das Ervas aos poucos vão sendo substituídos por óleos, pomadas, xaropes e outros medicamentos. "Remédio natural é melhor de vender", explica José.
A ex-patroa do rapaz, Maria da Silva Figueira, continua vendendo produtos de umbanda. Mas revela que gostaria de ter mais espaço na sua Casinha da Sorte para diversificar os remédios naturais que comercializa.
Para o francês Antoine Yan Monory, 39, que há 15 anos vive no Brasil, os remédios naturais são de grande auxílio para a reeducação do modo de viver das pessoas. "A doença é uma manifestação do corpo, uma mensagem de que algo não anda bem. Apenas trocar medicamentos de farmácias por produtos naturais ainda não é a solução. Melhorar o estilo de vida é essencial", ressalta.
Antoine atende na Rua Isaura Parente, onde faz massagens terapêuticas e também fabrica e vende remédios naturais denominados "Flor das Águas". São óleos aromaterapêuticos para a pele, mel, compostos e lambedores, tinturas e outras misturas de ervas para fumar e defumar. "Aprendi as técnicas com raizeiros, em cursos de capacitação e na escola da vida, sempre a partir de meu próprio interesse e respeito pela natureza", diz o francês.
A dona de casa Fátima da Silva afirma que sempre foi adepta de medicamentos naturais. "Minha mãe sempre fazia um chazinho especial para curar dor de cabeça, no estômago, etc. Ela sempre tinha um para cada problema, e como é uma medicina de fácil aplicação e de baixo custo, a gente sempre está utilizando", diz ela.

Preço das ervas atrai clientela
Para o médico homeopata Gilvan Rodrigues de Almeida, é necessário ter critério, conhecimento e experiência para trabalhar com a medicina natural. Mas ele descarta a possibilidade de riscos na prática dos raizeiros porque eles utilizam plantas conhecidas há muito tempo. "Só o uso contínuo de plantas que não foram estudadas é que pode apresentar um certo risco", alerta.
Gilvan acompanha pela internet estudos realizados na área da medicina natural e diz que uma das descobertas mais recentes revelou efeitos tóxicos causados pelas plantas confrei e valeriana. Segundo ele, se usadas sem critério e por longo tempo, ambas podem causar lesões no fígado.
Há dez anos trabalhando com a homeopatia, Gilvan vê a medicina natural como a melhor para os pacientes. "Porque ela preserva um dos princípios fundamentais de qualquer terapêutica, que é não agredir a saúde do paciente", diz ele, sem descartar a importância dos medicamentos alopáticos.
A prática da fitoterapia (tratamento de doenças com plantas) lhe ensinou que a cura depende da idade e do estágio da doença. "O homeopata argentino Paschero ensinou, porém, que doente não é só aquele que sente uma dor, e sim todo aquele que não sabe para que viver", conclui o médico.



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