história das Margens
marcos vinicius neves

Ruínas

Uma voz sublime
Uma palavra sublime
Um discurso subliminar
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez.
(Engenheiros do Hawai)

Danilo de S'Acre

A Amazônia sempre foi o lugar dos sonhos dos homens modernos. Imensa, indomada, inóspita, misteriosa, lugar dos reinos encantados do El Dorado e das mulheres guerreiras. Os homens que para cá vieram em todos os tempos traziam na bagagem a gana dos aventureiros que teimavam em tornar os sonhos reais e com isso ganhar fama e riqueza.

Foi assim que nos sentimos ao entrar no impressionante conjunto de ruínas e abandono em que se transformou o Seringal Palmares, mais tarde conhecido como Alcobrás. Poucos metros após passarmos da humilde e insuspeita porteira vimos surgir a nossa frente enormes galpões de concreto e metal completamente abandonados, ainda que em surpreendente bom estado; várias carcaças de ônibus e automóveis que pouco ou nunca foram usados; cinco prédios de dois pavimentos, que com certeza deveriam servir como vila de operários do sonho de uma usina de álcool em plena Amazônia Ocidental; toneladas de adubo, calcário e outros produtos químicos se esvaindo aos poucos a cada chuva que lava caudalosamente o chão e ajuda a alimentar as nascentes do Iquiri que, segundo se diz, nasce por ali. Mas, o mais surpreendente de tudo foi perceber a resistência dos diversos prédios de madeira (sede, escola, igreja, barracão de mercadorias, queijaria, etc.) que compunham o núcleo de um dos maiores e mais ricos seringais do Vale do Acre, o mais rico dentre todos os vales acreanos no início do século.

Era uma visão extraordinária. Encontrar ali, no meio daqueles milhares de pés de cana que teimam em nascer misturados ao capim e à capoeira, a sede do antigo Seringal Palmares de pé, ainda que de forma precária. Logo a curiosidade substituía a surpresa e vencíamos, com esforço, a altura do piso de madeira de um legitimo barracão de seringalista, os famosos coronéis de barranco, graças a uma escada que não mais existe.

Como era de se esperar, ali dentro encontramos poucos mas consistentes vestígios de um passado de fausto e glória. Uma grande geladeira "Electrolux" com pés altos, que a deixavam a mais de dois palmos de altura do chão (mais fácil de limpar do que nos nossos modelos modernosos), mais parecendo um cofre forte de tão maciça e que deve ter custado uma fortuna para chegar ao interior do Acre. As paredes inclinadas e carcomidas da espaçosa casa cujo estado não conseguia ocultar a ótima qualidade da madeira com que haviam sido construídas. O forro saia-camisa que tinha sido retirado da maior parte da grande casa mas ainda resistia em alguns dos quartos e não nos deixava enganar quanto ao capricho dos mestres carpinteiros que construíram a moradia de um dos mais poderosos seringalistas que por aqui se estabeleceram.
O banheiro interno da casa, luxo que poucos possuíam no Acre de então, revelou surpreendentes obras de alvenaria e uma carcomida rede de grossos canos de ferro, como que nos alertando que o dono daquela casa não havia poupado esforços e nem despesas em se tratando de ter conforto em meio à imensidão da floresta amazônica.

É verdade, o velho Honório Alves das Neves construiu, ao longo de anos de árduo trabalho, uma propriedade imensa, quase um país. Os seringais Palmares e Itú somados ocupavam uma enorme área, como a maioria dos outros gigantescos seringais de uma época em que a demarcação era feita pelas estradas de seringa.

O Itú, à margem do rio Acre, era a porta de entrada do reino do coronel Honório. Por ali chegavam as mercadorias trazidas pelos vapores que vinham do Amazonas fazendo a linha do rio Acre. Essas mercadorias eram depois distribuídas para dezenas de colocações de seringueiros pelos comboios de burros que cortavam a floresta por estreitos varadouros.

Quanto ao Palmares a história era um tanto quanto diferente. Tratava-se de um seringal de centro que ocupava uma vasta área de terra firme e que, além de rico em seringueiras e castanheiras, possuía grandes campos naturais que possibilitavam o estabelecimento da pecuária. Um ramo de atividade econômica complementar à exportação da borracha, e que permanece praticamente ignorado por quantos escreveram as histórias mais antigas do Acre.

Isso se dava em razão de que, desde que foram implantados, os seringais acreanos sempre necessitaram de um abastecimento regular de carne fresca. A alimentação baseada somente em produtos enlatados, que vinham da Europa industrial para alimentar as correntes de dependência econômica da borracha e as bocas de milhares de homens que viviam internados naquelas matas brutas, provocava a debilidade orgânica dos seringueiros e uma consequente diminuição de sua produtividade. Por isso era necessário fornecer-lhes carne fresca, fosse através da caça, fosse através do gado de corte, que só podia ser obtido naquela época nos campos bolivianos. Uma vez que caçar desviava a atividade dos seringueiros do corte da seringa, foi articulada, desde as ultimas décadas do século passado, a importação do gado boliviano. Essa rede comercial conseguiu manter-se ativa até mesmo durante o período revolucionário que marcou a passagem do século e continuou em funcionamento pelas décadas subseqüentes.

Porém, o estabelecimento do comércio de gado entre os criadores bolivianos e os seringalistas brasileiros criou necessidades específicas que precisavam ser atendidas. Depois da longa caminhada das manadas trazidas dos campos do norte da Bolívia, atravessando centenas de quilômetros de mata bruta, rasgada somente por estreitos varadouros entrecortados por inúmeros igarapés e rios, os bois que conseguiam suportar a longa travessia chegavam ao Acre magros e enfraquecidos, sendo necessário, portanto,
engordá-los para o consumo. Era aí que entravam em ação os campos naturais do Gavião, da Cobra, os campos do Capatará, os campos Esperança, as missões e os campos do Palmares. Nessas áreas o gado magro ficava invernado para engordar o suficiente até seu abate e a subseqüente realização dos lucros dos envolvidos nessa atividade.

Graças a isso o Palmares foi um seringal especial. Além de fornecer as tradicionais pélas de borracha e latas de castanha, produzia também, carne, leite, couro, queijo, e todos os produtos extraídos da atividade pecuária.
Construiu-se assim uma enorme fortuna que o velho Honório deixou aos seus herdeiros, especialmente ao Dr. Carlos, que dela usufruiu ao longo de toda a vida, até morrer, segundo nos disse um velho seringueiro nascido e criado nas terras do Palmares, "na pedra fria".

Quanto à Alcobrás, aquela enorme carcaça metálica visível para quantos percorram a BR-317 no rumo de Xapuri e que um dia pretendeu produzir álcool, para na verdade somente produzir rombos nas contas bancárias e nos cofres públicos; seria assunto suficiente para outro artigo desta coluna.

Basta-nos agora ver aquelas ruínas estranhas que somam em sua tristeza casas da melhor madeira de lei - de uma floresta que testemunhou uma época de riqueza e conforto graças ao leite generoso de suas arvores - e os prédios de alvenaria, ferro e amianto que não resistiram à realidade florestal dessa terra e apodrecem com sua modernidade e tecnologia ao sabor das abundantes chuvas do inverno amazônico. Assim passamos a compreender que esta Amazônia maravilhosa não foi construída somente por sonhos românticos e felizes, mas em grande parte, por sonhos em ruínas.

Perguntas ou comentários: webmaster@ac.gov.br - Melhor visualizado na resolução 800x600x256