
Evaldo Ferreira
Fotos: Antonio Orlando

Faz 27 anos do acontecido, mas Estevão lembra como se fosse hoje. Ele caminhava pela mata fechada quando percebeu que era observado. Numa rápida olhada em volta, se viu cercado por índios. Acostumado com os perigos da floresta, Estevão notou que pouco a pouco os índios foram sumindo. Não eram outros senão os Korubo, os temíveis caceteiros do Vale do Javarí, que matam suas vítimas com violentas cacetadas na cabeça. Até agora o sertanista acredita ter sido obra de Deus o fato de sair ileso desse contato, o de maior perigo enfrentado por ele em mais de 40 anos de vida em meio aos índios do Amazonas, primeiro exercendo diversas funções no S.P.I. (Serviço de Proteção ao Índio), e depois como sertanista da Funai (Fundação Nacional do Índio), função da qual se aposentou no ano passado.
Num sentido mais genérico, sertanista é sinônimo de bandeirante, pessoa que entrava os sertões em busca de riquezas e, se acrescente aí, índios para servirem de escravos, fatos acontecidos até o século passado. Por extensão, também é a pessoa que conhece ou percorre o sertão, o que vem a ser o nosso caso. Em 1907, Cândido Rondon empreendeu uma viagem de Cuiabá, na direção do rio Madeira, no hoje estado de Rondônia, acompanhado por mais de 200 homens. O objetivo era estender as linhas telegráficas até Manaus. No início dos anos 40 foi a vez dos irmãos Villas Boas seguirem de Uberlândia/MG na direção do inexplorado Centro-Oeste do Brasil, também acompanhados por dezenas de sertanistas. Objetivo: desbravar a região. Em ambos os casos, as expedições toparam com vários povos indígenas, milhares de pessoas vivendo em meio à floresta virgem. Nos anos 60 e 70, o lema Integrar para não Entregar do governo militar, cujo objetivo era abrir estradas por toda a Amazônia, fez com que nomes como Gilberto Pinto, Sebastião Amâncio, Paulo Álvaro, Camianga, Modesto, Rubem, Nilo e muitos outros, seguissem em várias direções, mantendo contatos, em praticamente toda a região, com etnias indígenas que desconheciam a civilização branca. Atualmente, com a Amazônia quase toda conhecida, a Funai possui o Departamento de Índios Isolados, chefiado pelo sertanista Sidney Possuelo. Diferente do trabalho realizado até então, não se procura mais o contato com os povos isolados, mas apenas detectá-los e manter os brancos longe de suas terras. Estima-se que 20 grupos isolados ainda vivam na floresta amazônica.
Em busca de aventuras Estevão da Silva Rodrigues nasceu no município paraense de Oriximiná, na localidade do "Boto", há 63 anos. Ainda menino, deu os primeiros sinais de que uma vida de aventuras lhe aguardava pela frente. Aos 13 anos, mesmo sendo filho de um pequeno, mas bem sucedido fazendeiro, não pensou duas vezes para fugir de casa após consecutivos maus-tratos da madrasta. Depois de três tentativas frustradas, ganhou o mundo na quarta.
Trabalhando como vaqueiro, transportando gado em barcos, do Amazonas ao Pará e vice-versa, mesmo tendo planos de ir tentar conseguir uma fazenda no ainda inóspito estado de Roraima, o garoto teve sua atenção despertada para o salário pago pelo S.P.I., que ele não sabia o que era. Lá, ganharia muito mais que o dobro dos ganhos como vaqueiro. Logo soube que no S.P.I. trabalharia com índios e lembrou das terríveis histórias que o avô contava sobre eles, mas resolveu enfrentar o perigo.
Fazendo o próprio salário
Apesar de ser órgão do governo federal, o S.P.I. não dispunha de verbas. Os funcionários tinham que transformar produtos da floresta em dinheiro com a venda de carne de caça, ainda permitida, a extração da balata e outras drogas do sertão, além de plantar para o próprio consumo. Os funcionários também construíam as casas dos postos, onde iriam morar, cobertas com japá, uma espécie de palha trançada por eles mesmos, e ficavam de dois a três anos praticamente isolados nos postos. No caso de Estevão, então com 14 anos, sua primeira atribuição foi extrair pau-rosa. Ele cortava a árvore de madeira cheirosa e arrastava grande e pesada quantidade dela até o posto Andirá, dos Sateré-Maué, local onde começou a trabalhar, em Parintins/AM. Três meses depois comandava um grupo de trabalhadores índios.
Nas décadas de 60 e 70 a política do governo federal incentivou a ação dos sertanistas
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Ao longo dos anos, Estevão foi caçador, cozinheiro, motorista até chegar a chefe de posto quando, aos 20 anos, manteve o primeiro contato com índios isolados, coisa que poucos tinham coragem de fazer. Foi com os Hixkaryana, aproximadamente 300, no rio Jatapú. Em seguida conheceu os Wai-Wai, cerca de três mil somente na aldeia principal, da mesma etnia e falando o mesmo dialeto dos Hixkaryana. A sorte de Estevão é que ambos os grupos eram bastante dóceis. Nesse mesmo ano, 1957, também manteve o primeiro contato com os ainda isolados Waimiri-Atroari, pois já se cogitava a construção da BR-174 (Manaus-Boa Vista), passando por sobre suas terras. Apesar de desconfiados, Estevão conseguiu conquistar a amizade deles, destruída no final dos anos 60, quando o Exército abriu a estrada. "O índio generaliza a amizade e a inimizade. Se um branco lhe faz mal, então nenhum branco é amigo. O Exército entrou com tudo nas terras deles. A ordem era matar quem impedisse a construção da estrada", explica Estevão e acrescenta. "O índio primitivo é sério. Se gostar de você, se torna o seu melhor amigo agora, se for enganado, nunca mais acredita em você. Essa foi a característica que encontrei em todos os grupos onde convivi".
Sateré-Maué, Hixkaryana, Waimiri-Atroari, todos os grupos dos Yanomâmi, grupos do Purus e Solimões, entre estes o maior do país, os Ticuna, com os 26 mil índios e os Maioruna, Korubo e Matís, do Vale do Javarí. Estes são apenas alguns dos grupos com os quais Estevão manteve contato e chegou a conviver por anos, no Amazonas. Ele reconhece que o povo que mais sofreu com a presença do branco foi o Waimiri-Atroari. Quando do primeiro contato, em 1957, eles eram mais ou menos três mil. Em 1969, quando a BR -s174 avançava sobre suas terras, eram apenas 1.800. Em 1986 parecia que seriam extintos, reduzidos a 376. Em 1990, já na sua reserva, o número aumentou para 500. Hoje são mais de 850. "Infelizmente, após conhecer a cultura do branco, o índio passa a desvalorizar a sua própria. No caso dos Waimiri, eles querem tudo do branco, inclusive as mulheres", lamenta.
Com os Ticuna
Estevão: "O índio primitivo é sério"
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Os Ticuna habitam as margens do Solimões, espalhados em várias aldeias. Mantém contato com os brancos há mais de 300 anos. Orgulhosos, até hoje não aceitam a intromissão destes na sua cultura chegando a se tornar agressivos se tal acontece. No final dos anos 50, durante suas festas, bebiam o pajauarí, mais forte que o álcool, e colocavam para correr os chefes do posto do S.P.I., em Tabatinga. Estevão foi enviado para lá e com pouco tempo dominou a situação, usando de esperteza. Tratou de fazer amizade com os chefes e criou uma polícia formada somente por índios. Com a ajuda do Exército, mandou construir uma escola e uma cadeia. Quem causasse desordens ia preso. Foi chefe do posto durante seis anos e até hoje tem o respeito dos Ticuna.
Dos grupos isolados, o que conseguiu realizar a atração mais rápida foi o Maioruna, em 1966, no vale do Javarí. Com três meses os índios já trabalhavam no posto. O interessante dos Maioruna é que das vezes que atacaram os brancos invasores de suas terras, mataram os homens e raptaram as mulheres. Quando Estevão conseguiu fazer amizade com eles, descobriu que existiam brancos morando em suas aldeias. Um destes brancos era um peruano que, satisfeito, convivia com quatro índias. Uma das mulheres seqüestradas, perguntada se queria ser retirada dali, respondeu que não, pois considerava o marido um covarde por não tê-la salvado dos índios. Agora convivia com um Maioruna que a tratava muito bem, além de ter um filho dele.
No início dos anos 70 um avião caiu na floresta, na fronteira do Pará com o Amazonas, e o médium Chico Xavier disse que havia um sobrevivente, com amnésia, recolhido por uma tribo de índios. Um grupo de sertanistas, entre eles Estevão, foi enviado ao local e descobriu que lá habitava a tribo dos Pirititi. O contato não foi possível porque, em duas tentativas, os Pirititi demonstraram não querer a presença de brancos em seu território, se afastando das aldeias ao menor sinal de sua aproximação. Até hoje não se sabe se há um branco vivendo entre eles.
Política indigenista
Atualmente a política da Funai é de que não sejam feitos contatos com os índios isolados, apenas os localizando e delimitando a área na qual vivem para impedir a entrada de brancos. Com isso, o sertanista transformou-se numa "espécie" em extinção. Aposentado pelo S.P.I. desde 1973, e agora pela Funai, Estevão diz que se precisar novamente fazer contatos com povos isolados, está em forma. "Muitos colegas meus morreram nessa atividade na floresta. Não morri em diversas emboscadas de índios porque não estava naquele lugar, naquela hora", declara, ainda demonstrando coragem e reconhecendo que antes de ser uma ameaça, o índio é uma vítima. "Sou a favor que todos os povos indígenas sejam aculturados porque mais cedo ou mais tarde os invasores e aventureiros chegarão nas suas terras e destruirão a vida feliz que levam. Aculturados, o impacto será menor", finaliza.
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No Acre, oito terras indígenas - situadas ao longo e nas proximidades da fronteira internacional Brasil-Peru - constituem territórios de perambulação e moradia de índios isolados. Estes índios, conhecidos como "brabos", perambulam pelas cabeceiras dos rios Breu, Jordão, Tarauacá, Humaitá e Envira. Há um século, eles roubam ferramentas, alimentos, roupas e espingardas de casas dos seringais situados próximos às cabeceiras. Conflitos com os Kaxinawá, Ashaninka e seringueiros têm resultado em mortos e feridos.
Em 1987, a Funai instalou a frente de Contato Rio Envira, na boca do igarapé Xinane, afleuente da margem esquerda do Envira. Em mais de uma década como coordenador desta frente, o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júniore sucessivas equipes têm procurado conscientizar os Ashaninka a evitar as cabeceiras dos rios Envira. A atuação da Frente, que impede a entrada de caçadores e pessoas estranhas, tem garantido a integridade das terras indígenas nos altos rios Envira e Tarauacá.
Em março de 1998, Sidney Possuelo, chefe do Departamento de Índios Isolados da Funai, e José Meirelles sobrevoaram o alto Tarauacá e viram malocas de índios isolados em terras indígenas no Acre. Para garantir a segurança destes índios, a Funai publicou portaria de restrição de uso, proibindo o acesso à Terra Indígena Alto Tarauacá . Foi proposta ainda a indenização e retitrada das famílias que ali moram, e a instalação de um posto de vigilância na foz do rio D'Ouro.
(Txai Terri Vale de Aquino e Marcelo Piedrafita, em levantamento para o Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre)
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