
Archibaldo Antunes
Fotos: Marcos Vicenti
Pés descalços no asfalto morno e empoeirado, bata branca, vela nas mãos. Os lábios acompanham a oração que sai dos alto-falantes, e o brilho dos olhos - ora fosco, ora intenso - oscila entre a fé e a conformação. Mas não é, claro, esta última que move a multidão de quase 30 mil pessoas nessa procissão de Nossa Senhora da Glória, em Cruzeiro do Sul. É a fé definitiva, incontestável. Que cura, redime, acalenta.
A mesma fé que livrou da doença os filhos da dona-de-casa Maria José dos Reis, de 25 anos. Milagre? Ela afirma que sim. Não revela, porém, o nome da moléstia que quase matou dois dos três filhos que teve. Talvez por acreditar que essa revelação possa des-validar a graça obtida.
O Novenário de Nossa Senhora da Glória, realizado entre os dias 5 e 15 de agosto, é a segunda maior manifestação de fé da região Norte. O evento dá um sopro de vida na economia de Cruzeiro do Sul. E atrai pessoas de diversos pontos do Acre, repórteres e turistas. Mas a maior parte dos fiéis é constituída por moradores da zona rural e urbana do município.
Como Nice Maria de Araújo, 70, e Maria de Lourdes, 60, que caminharam mais de uma hora até a Catedral, para integrar a procissão. Elas afirmaram que voltariam para casa só depois da missa, que começou por volta das 20 horas. "Na volta a gente precisa pegar um táxi, porque andar na estrada a essa hora não é muito seguro", disseram.
Nessa época do ano é comum que seringueiros e agricultores do Vale do Juruá viagem até quatro dias de barco até Cruzeiro do Sul. Raimundo Farias, 33, vive no seringal Restauração, na Foz do Tejo. Ele e o "chefe" eram toda a tripulação de uma catraia que transportou, por três dias, oito pessoas até Cruzeiro do Sul, a 5 reais por cabeça. "A comida foi por conta do dono do batelão", diz Raimundo. A volta para casa, segundo ele, é mais demorada: seis dias de "subida".
Há quem vá a Cruzeiro do Sul apenas para acompanhar a procissão, como as pessoas que viajaram com Raimundo. Mas os que participam da festa desde o primeiro dia estão acostumados às novenas, "prendas" e leilões diários. "Prendas são as doações que os fiéis trazem para que a gente possa leiloar", ensina o padre Ailson Pinheiro Zumba, 35. Segundo ele, mais de 250 pessoas contribuíram para a organização do Novenário.
Tamanha demonstração de apreço às atividades da igreja intimida o crescimento dos templos evangélicos. A Universal do Reino de Deus se instalou ao lado da Catedral de Nossa Senhora da Glória mas, segundo Zumba, a investida não surtiu efeito. A Paróquia, que vem recebendo cada vez menos doações da Alemanha, aposta nessa fidelidade para o sucesso do "sistema" de dízimo, que será implantado em breve.
Padre Zumba justifica a cobrança eminente pela dificuldade de gerir as atividades da igreja. A Pastoral da Criança dá assistência a mulheres gestantes e oferece alimentação alternativa durante os três primeiros meses do bebê. Atualmente, 550 crianças de cinco creches são atendidas pela Paróquia, que possui até Faculdade de Filosofia e Teologia.




Novenário ajuda pequenos comerciantes como José Ferreira Lima
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Sem reconhecimento do Ministério da Educação, a faculdade funciona em regime fechado, ou seja, apenas para os membros do seminário. "Temos 30 jovens atualmente", diz ele.
As doações chegam da Alemanha porque de lá saíram os missionários da Congregação do Espírito Santo, em 1918. Os missionários foram responsáveis pela construção da igreja no Morro da Glória, onde funcionou a paróquia até 1965. Nesse ano ficava pronta a Catedral e os fiéis "desceram" o morro.
Os padres alemães trouxeram consigo know-how em carpintaria e marcenaria. Implantadas no município, essas atividades ganharam "contornos" artísticos. Segundo um relatório da Unesco escrito em 1997 pela embaixadora do órgão, Karen Stempel, Maqueson Pereira da Silva, 40, natural de Cruzeiro do Sul, é o único marcheteiro reconhecido deste lado do Equador. Maqueson trabalha colando pedaços de 150 espécies de árvores até que eles adquiram significado artístico - e o resultado se assemelha muito às pinturas.
Sacristão da Paróquia de Nossa Senhora da Glória, Alberto Brito, 67, afirma que os alemães também instituíram o Novenário no município. "Naquele tempo as barracas de comida eram armadas nas encostas do morro, e a banda de música era regida por Virgílio Santiago", diz o sacristão. O nome do "maestro" pode não significar muito inclusive para os moradores locais, mas nunca foi esquecido por quem costuma enumerar todos os bispos e padres que já passaram por Cruzeiro do Sul.
Brito chegou ao município em 1952, mas conhece muito sobre a história do Novenário. Segundo ele, o atual prefeito Aluísio Bezerra, do PFL, foi o primeiro a quebrar uma tradição com mais de 80 anos: a de que sempre coube à maior autoridade local hastear a bandeira na abertura da festa. "Ele se recusou, sob a alegação de que não é católico", conta o sacristão.
O prefeito sofreu críticas mais severas por ter autorizado a instalação de ambulantes na praça, lugar antes destinado aos fiéis. O centro de Cruzeiro do Sul foi tomado por barracas de lona preta. A autorização para a venda de produtos foi tabelada pela prefeitura, que cobrou até 300 reais por dez metros quadrados. Os estudantes enviaram um abaixo-assinado ao prefeito pedindo a retirada dos ambulantes do centro da cidade, mas Aluísio Bezerra fez ouvidos de mercador.
Natural de Fortaleza (CE), Antonildo Pimenta de Oliveira, 23, pagou sua cota à prefeitura para comercializar confecções. Suas expectativas de venda foram frustradas pela grande concorrência, que também tirou o sono dos comerciantes locais. Assim mesmo, o camelô pôde contratar cinco moças para trabalhar com ele, ao preço de 8 reais a diária.
"Não faço idéia de quanto vou lucrar", disse Antonildo, que dividiu com mais cinco ambulantes o frete de 1,5 mil reais de um caminhão que saiu de Rio Branco e chegou a Cruzeiro do Sul três dias depois.
Mas o comércio informal que se instalou no centro do município não atrapalhou os negócios de todo mundo. José Ferreira Lima, o "Taveira", 51, afirma que seus lucros aumentaram durante o Novenário. O ex-fotógrafo e atual dono da "Cigarraria Continental" dedica-se a uma atividade inusitada para quem vive em Rio Branco: vender perfume "a retalho".
A modalidade de comércio criada por Taveira, segundo ele próprio, consiste em retirar 3 ml de perfume dos frascos Toque de Amor e Topázio, da Avon, e vendê-los a 50 centavos. As "doses" são tiradas com o auxílio de uma seringa hipodérmica, na extremidade da qual o comerciante fixou uma minúscula mangueira de sucção.
Padre Zumba: fé católica intimida o crescimento de templos evangélicos
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Durante o Novenário houve fila para compra de pequenas quantidades do produto. "Quem vive na cidade ou no seringal compra do meu perfume", orgulha-se Taveira.
O exemplo do comerciante respalda as palavras do padre Zumba, segundo o qual o Novenário é importante para a economia de Cruzeiro do Sul. Outro aspecto essencial da festa é a manifestação da fé. Para a Igreja Católica, que vem paulatinamente perdendo fiéis para as religiões evangélicas, conseguir reunir 30 mil pessoas depois de 82 anos de Novenário é, no mínimo, motivo de comemoração.
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Com uma área de 7,881.5 km2 e localizado 648 km a oeste de Rio Branco, quase na fronteira com o Peru, o município de Cruzeiro do Sul é o segundo pólo populacional (56.705 habitantes), econômico e turístico do estado do Acre, sendo a cidade mais importante do Vale do Juruá.
A economia do município baseia-se na lavoura, destacando-se a cultura de mandioca, guaraná e açaí. A qualidade da farinha de mandioca produzida em Cruzeiro do Sul é famosa e já garantiu mercado até mesmo fora do país.
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