

Rogério Almeida
É preciso reanimar as almas. A poetisa Cecília Meirelles afirma em um poema: "A vida só é possível reinventada". E como é necessário reinventar a vida nos dias atuais. Antes de tudo é necessário recriar o país. Recriar o país implica em eleger pessoas comprometidas com as classes populares. Com os oprimidos históricos: crianças, índios, negros, mulheres, trabalhadores urbanos e rurais, desempregados, idosos.
Basta desse papo que as pessoas falam por aí: "Fulano de tal roubou mas fez alguma coisa". Basta dessa história de inversão de valores. Quem é honesto é considerado um otário, um Zé Mané. E quem possui patrimônio duvidoso goza de respeito, não importando se teve que matar, roubar ou corromper para constituir alguns bens.
É obrigação de quem ocupa o poder no Executivo garantir as obrigações básicas elencadas em lei: educação, calçamento de ruas, posto de saúde. O chefe do Executivo apenas gerencia os recursos dos impostos pagos pelos cidadãos. É um funcionário da sociedade. Garantir os serviços básicos é obrigação, não é favor.
É preciso reanimar as almas. E nada melhor que a poesia para injetar ânimo nos sem esperança. Como falar em poesia onde falta tudo: emprego, saúde, moradia, justiça, lei, sonho? Assim como o pão alimenta o corpo , o sonho nutre a alma. Por isso ousamos engrossar a fileira dos descontentes com o sistema. Por isso ousamos sonhar.
Ferreira Gullar, poeta maranhense odiado pelo general João Batista de Oliveria Figueiredo, fala da vida e poesia com dignidade: " Como dois e dois são quatro. Sei que a vida vale a pena. Embora o pão seja caro e liberdade pequena". E como a liberdade anda pequena por esses rincões do país. Cá em Marabá, a violência é chaga que não tem cura a curto prazo. A violência tem várias faces, a física constitui apenas uma delas. Nas instâncias da prefeitura de Marabá a coerção para que funcionários temporários e até concursados votem no atual prefeito tem rolado solta. Falar em liberdade de expressão é heresia.
A coerção surge quando o emprego vira objeto de barganha dentro do cenário de milhões de desempregados. Sabemos que é necessário garantir o pão de cada dia, e para se garantir o pão de cada dia relega-se a cidadania/dignidade para o segundo plano. E se a eleição surge como oportunidade de faturamento de algum vintém para muitos desempregados, carrega-se a propaganda de quem só oprime os excluídos e tira vantagem do recurso público. De quem só tem projeto pessoal. Tenho dito: é preciso reinventar o país, a democracia brasilis, frágil demais.
Se garantir o pão de cada dia anda difícil, imagine educar um filho, que quando tem oportunidade de freqüentar escola, apenas passa por um sistema educacional que adestra as pessoas a decodificarem alguns códigos gramaticais. Possibiltar a formação de cidadãos que pensem é arriscado demais. Imagine que comecem a questionar a ordem, o poder?
Comecem a questionar porque os conservadores que disputam o poder local se neguem a participar de debates nas universidades? Imagine que comecem a questionar a união de gatos e ratos, de quem antes se agredia e agora trocam afagos e beijos?
Imagine que comecem a questionar a origem da corrupção, violência, como são erguidos os falsos líderes, a impunidade, a falta de liberdade de expressão? Porque sempre a polícia é chamada quando o trabalhador se organiza para reivindicar o que lhe é de direito? Porque os poderosos roubam e são exilados em Miami, e a maioria da população vive acorrentada à miséria? Miséria que sustenta a ordem, os parasitas do poder.
Imagine cada pessoa da periferia analisando o vale- tudo que se tornou a disputa pelo poder local? A máxima que todo homem tem seu preço é levada à risca por essas bandas do Brasil. Ex-sindicalistas, comunitários pastores (dos cabos eleitorais, a ovelha preferida), são disputados a tapas, sacos de dinheiro. E haja dinheiro público para amarrar tanta aliança espúria.
Muita paciência revolucionária e alma serão necessárias para se reinventar Marabá, o Pará, o Brasil. O presidente, representante-mor das elites nacionais, considera trabalhador como baderneiro, aposentado como vagabundo, arranca das tumbas a Lei de Segurança Nacional (LSN) para quem incomoda a ordem instituída, recria o Serviço Nacional de Informação (SNI) detona com tudo que é estratégico para o país: CVRD, Telebrás, e outras estatais. Arria as calças para todas as imposições do FMI.
É preciso desentortar a democracia brasileira, que concentra poder econômico, renda, terra, meios de comunicação de massa, que consagra a corrupção como única instituição que funciona, e a impunidade como lei. Roberto Freire, uma anarquista histórico costuma filosofar: "imagine as pessoas questionando o voto, o serviço militar obrigatório? Imagine quando a população resolver não mais pagar impostos, não ir às urnas?
É preciso ter fé. Não a que celebra que a solução de cada problema despenque do céu. Mas, a fé na organização popular, nos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, nos estudantes, desempregados. Sei que luta vale a pena. Como disse o poeta lusitano Fernando Pessoa, "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena".
Sei que o presente texto não alcançará muitas almas, talvez nem seja publicado em algum jornal da região. Mas a palavra é o meu megafone. Tenho dito, é preciso reinventar a vida.
* Rogério Almeida é técnico do Centro de educação Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp) - Marabá/Pará.
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