José Chalub Leite

Era delegado de Sena Madureira. A fama de autoritário, severo, truculento, mau do tenente Aluísio Queiroz fazia com que os malandros trilhassem à força a senda do bem, exceto um agente policial de apelido Capivara, insolente, debochado, achacador diplomado, calo e dor de cabeça do delegado, incapaz de puni-lo por ter a proteção de cacique político do PSD. Nem suspensão podia sapecar no folgado que desafiava sua autoridade escorado na influência do padrinho poderoso.

Um dia o delegado recebe expediente da capital do território, enviado pelo chefe de polícia, com ordem de embarcar para Boca do Acre com destino a Manaus três doentes mentais de Sena Madureira. O xerife decidiu aproveitar a ensancha oportunosa para se livrar do Capivara. Mandou buscá-lo no boteco onde enchia a craveira e perguntou se não queria rebocar até Boca do Acre o terno de doidos, lhe daria boa gratificação e de quebra devolveria o revólver e as balas apreendidas. Capivara aceitou a incumbência na hora. Embarcou no batelão com os mentecaptos, portando um ofício do delegado Aluísio Queiroz ao comandante do navio baseado na cidade amazonense. Um policial feliz a caminho da terra dos Apurinã era o Capivara, tranqüilo porque os agitados doidos iam bem amarrados. Em Boca do Acre foi direto ao vaticano "Fortaleza" entregar o ofício do comandante Lustosa, do seguinte teor:

"Senhor Comandante Lustosa.

Tenho a satisfação de entregar a V. Sª quatro doentes mentais, de ordem do Ilmº Sr. Chefe de Polícia do Território Federal do Acre, para internação no manicômio da cidade de Manaus.

Outrossim, informo a V. Sª que o portador deste é um louco cuja mania é dizer-se policial nas horas de lucidez, quando na verdade é de alta periculosidade. Ele chama-se Capivara.
Respeitosas saudações etc. - Francisco Aluísio de Queiroz - Delegado de Polícia de Sena Madureira".

Diante de tal recomendação, o comandante Lustosa não tinha alternativa. Convocou quatro parrudos marinheiros e à força amarraram e engaiolaram o infeliz Capivara, que sob protestos e juras telúricas de vingança ficou no mesmo chiqueiro gradeado de bordo em companhia dos três realmente malucos.

Assim, o tenente Aluísio Queiroz livrou Sena Madureira de seu maior desordeiro e ele próprio de um grave problema administrativo de insubordinação.

N.R -O texto acima faz parte do livro Tão Acre - O humor acreano de todos os tempos (II), ainda inédito, do jornalista e escritor José Chalub Leite. O autor, falecido em março de 1998, foi uma das figuras mais expressivas da imprensa acreana.

Perguntas ou comentários: webmaster@ac.gov.br - Melhor visualizado na resolução 800x600x256