
Vássia Vanessa da Silveira
"(...)Só agora nos últimos anos é que estamos com os direitos de ter uma comunicação através da escrita na nossa língua própria. Sendo um processo novo para os índios e para os assessores, encontramos várias interrogações no ar. Como se fôssemos andorinhas voando para pegar as moscas de sua alimentação numa tarde de temporal de chuva. Mas o túnel do futuro mostra que somos capazes de realizar os sonhos que sempre tivemos como povos diferentes, valorizados dentro de nós mesmos e espiritualmente."
O texto acima é do professor Joaquim Mana Kaxinawá e deverá ser lido por aproximadamente 80 mil estudantes que devem concorrer a uma vaga no próximo vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mana Kaxinawá faz parte da Organização dos Professores Indígenas do Acre e é o organizador do Shenipabu Miyui- História dos Antigos, livro reeditado pela UFMG e incluído na lista de leituras obrigatórias do vestibular.
Professor Joaquim Mana Kaxinawá
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Shenipabu Miyui reúne 12 mitos Kaxinawá e foi um dos primeiros livros de história organizado pelos índios que fazem parte do projeto Uma Experiência de Autoria, da Comissão Pró-Índio (CPI). "Siã fez uma viagem ao Purus, até os Kaxinawá do Peru, gravando os mitos, as histórias contadas por todos os Kaxinawá", lembra o professor Mana. Da viagem de Siã à conclusão do livro, em 1995, foram gastos sete anos de pesquisa. A demora se justifica na dificuldade que os índios tiveram para representar, graficamente, a língua falada. "Alguns fonemas da nossa língua não existiam e precisamos da ajuda de uma lingüista para representar os cinco fonemas que usamos", explica Mana. Ele lembra que quando foi levado para dentro da escola o primeiro livro escrito por índios, a reação das crianças misturava alegria e espanto. "Elas já conheciam a história mas não sabiam quem tinha escrito. Iam escutando e, às vezes, falavam: meu pai fala que esse trecho fala isso...", diz Mana reconhecendo que há diferenças entre a linguagem oral para a escrita.
Com o projeto da CPI - que nasceu de uma reivindicação das próprias comunidades indígenas do estado - outros livros, além do Shenipabu Miyui, foram e continuam sendo escritos. São livros de história, geografia e cartilhas que ajudam na formação de crianças e adultos nas aldeias do Acre. São 17 anos de projeto e 135 professores, de diferentes etnias, formados. Desses, 40 fazem parte de Uma Experiência de Autoria. "Antes, a pressão era essa: tinha que trabalhar com a Língua Portuguesa. Com esse projeto, a gente está invertendo", comemora o professor Mana.
Apesar do tempo e das conquistas, Uma Experiência de Autoria ainda enfrenta a resistência de algumas lideranças indígenas. "Elas chegam para mim e dizem: nós já sabemos a nossa língua", diz Mana, que rebate com um argumento lógico: "As pessoas que dominam sua língua desenvolvem mais rápido. Sendo autor de sua língua, você pode criar".

Nas aldeias alunos aprendem a ler e a escrever suas histórias na língua indígena
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Segundo o professor, ainda há, no Acre, terras indígenas que consideram como a primeira língua, o Português. Mas Mana não desanima e acredita que essas comunidades ainda têm condição de resgatar sua língua e sua cultura. Professor desde 1983 e com seis filhos, ele sente na pele o que significou os anos em que a língua indígena era tratada pelos brancos como gíria. Sua filha mais velha, Bismani, 20 anos, resolveu sair da aldeia para estudar numa escola em Tarauacá.
Além dos trabalhos no projeto Uma Experiência de Autoria, Mana tem prestado consultoria ao Ministério da Educação nos programas de Educação Indígena. Como passa pouco tempo na aldeia, o filho Zezinho, 17, é quem substitui o pai nas aulas da escola. "Ele tem vocação", diz orgulhoso.
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O livro Shenipabu Miyui é bilíngue e está sendo vendido nas principais livrarias de Belo Horizonte. Em Rio Branco ele pode ser comprado por R$ 30 no Kupixawa, ao lado da Biblioteca Pública do Estado. Toda a arrecadação das vendas será revertida para a Organização dos Professores Indígenas do Acre que vai investir em pesquisas e na produção de novos materiais didáticos para as escolas indígenas.
O fato da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ter procurado os índios para saber se podiam fazer uma segunda edição do livro e, logo depois, incluí-lo na lista de leituras obrigatórias de seu vestibular significa, para os professores indígenas do Acre, o respeito e a valorização do trabalho que vem sendo realizado nos últimos 17 anos. O professor Mana Kaxinawá só lamenta que isso não tenha acontecido ainda aqui. "Foi reconhecido fora do estado. Aqui não", diz ele.
Em Minas Gerais, seis etnias estão tendo apoio financeiro do Estado para um programa de escola indígena inspirado no projeto Uma Experiência de Autoria. No Acre, a Secretaria de Estado de Educação está contando com a consultoria da Comissão Pró-Índio (CPI) para a formação de professores indígenas. Essa parceria formou, este ano, 75 novos professores.
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