O que você vai ser quando crescer?

Archibaldo Antunes

Fernando Henrique Cardoso revelou que gostaria de ser ator, se não fosse político. Acho que de cinema, onde há mais glamour. Não entrarei no mérito do seu desempenho como presidente da República, que esse não é o objetivo desta crônica. Mas confesso que gostaria mais de vê-lo sob a direção do Walter Salles que do Antônio Carlos Magalhães.
Foi pensando nessa história que outro dia me deparei com uma questão que, mais cedo ou mais tarde, todos nós nos propomos: se não fizesse o que faço, o que haveria de fazer? Todo menino ou menina ouve dos mais velhos a pergunta inevitável:

- O que você vai ser quando crescer?

Não me lembro se tinha alguma preferência por essa ou aquela profissão, mas sei que já quis ser jogador de futebol. Pois queria vestir a camisa da Seleção Brasileira, morar na Europa e, é claro, passear numa Ferrari. À noite sonhava com a glória dos dribles e gols espetaculares, como se as mesmas mãos que entortaram as pernas do Mané Garrincha pudessem desentortar as minhas.

Nas peladas não me revelava um craque. E na formação dos times era comum que me preterissem por outro atleta menos escalafobético. Não desisti, atribuindo minha inaptidão à falta de treino, e assim fui cavar uma vaga no time do Ernani, professor de educação física que treinava vários meninos na praça Barão do Rio Branco, em Macapá. Recebi uma camisa e após o jogo fui chamado a um canto.

- Seu lugar é atrás - disse ele.

- Como zagueiro?

- Não, meu filho: de gandula...

Outro dia, num dos meus momentos de crise existencial, descobri que os edifícios me transtornam a alma. Pois durante esses anos todos, calado no meu peito, havia ficado esse construtor mirim que iniciou a carreira fazendo casa para playmobill.

Mas o tempo se foi e com ele as possibilidades de realização. Só me resta fitar as construções modernas e, por mais feias e pouco adaptadas ao clima da região, constatar que elas me humilham. Impressiona-me a estrutura sólida e firme, erguendo-se orgulhosa entre árvores, atravancando o caminho dos pássaros e a vista que teríamos do céu se lá não estivesse o edifício fatídico.

Penso com respeito o quanto deve ser fabulosa a missão de construir. Que sublime profissão! Quanta utilidade tem uma pessoa que abriga muitas outras com o resultado de seu trabalho! Confesso que invejo esse dom. Quisera eu poder colocar no lugar de cada palavra um tijolo, e ao invés de literatices fazer arranha-céus... Pudesse trocar a gramática pelo concreto-armado e seria como esses sujeitos bem sucedidos que bebem dos melhores uísques e decidem como vai ser a fachada do país.

É claro que há vantagens em se dedicar ao exercício de escrever, e uma delas é que os textos não costumam desabar como os prédios do ex-deputado Sérgio Naya. E se algumas palavras mal empregadas despencam lá de cima, o máximo que podem fazer é ferir a suscetibilidade de um leitor mais exigente.

Comecei citando FHC porque acho o caso do presidente - digamos - emblemático. Por ocupar o cargo mais importante da Nação e assim mesmo se achar frustrado por não ter realizado um sonho - ou capricho - de juventude.

E talvez nem tivesse lembrado dessa história se não estivéssemos em período eleitoral, quando nos abrigam a ver e ouvir tanta sandice. Alguns candidatos nem sabem ler e outros sequer conseguem disfarçar que estão atrás apenas das vantagens oferecidas pelo poder. Tenho acesso de riso toda vez que me deparo com determinadas criaturas na tevê.

Mas isso já é outra história...

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