Terrível vingança

Elson Melo



O seringal grande e movimentado, possuía muitas estradas de seringueiras, verdadeiros mananciais de leite e borracha fina. No terreiro do barracão, durante o verão, acumulavam-se as pélas brancas e compactas que aos poucos iam se tornando avermelhadas até atingirem definitivamente uma tonalidade escura, razão pela qual os pioneiros batizaram-nas de ouro negro.

Quando o rio começava a encher, os navios apareciam apitando e fumaçando pelas chaminés, descarregando mercadorias e embarcando aquela riqueza que era levada para Manaus e Belém. Depois os seringueiros recebiam as "contas de vendas" para o ajuste final do ano.

Se a vida era vivida com muitas dificuldades, não deixava entretanto, de ter os seus momentos de alegria e lazer, durante os ajuntamentos no barracão, aos domingos, quando a freguesia bebia cachaça e fazia competições de tiro utilizando rifles 44, papo-amarelo. Às vezes até dançavam, se aparecia um sanfoneiro e algumas damas.

Jovino nascera ali mesmo numa barraca ao aceiro do campo. Fôra o primeiro e único filho desde que o pai morrera quando ele era bem pequeno, picado por uma surucucu pico-de-jaca. A mãe, dona Joana, uma mulher honesta, conservara-se viúva, vestindo roupas escuras, embora houvesse recebido muitas propostas de casamento.

Jovino criara-se ajudando nos trabalhos do barracão enquanto a mãe lavava as roupas dos patrões e do guarda-livros. Não aprendera a ler porque naquela época não havia escolas e as poucas pessoas alfabetizadas não dispunham de tempo e nem de paciência para ensinar. Quando os meninos atingiam a puberdade já estavam preparados para o corte da seringa e migravam para as colocações centrais só aparecendo à margem nos fins de mês. Quanto às meninas, casavam logo que o busto começava a empurrar-lhes para a frente o vestidinho de chita ou de cretone.

- Tá mijando na rede e já vai casar!, exclamavam os velhos com uma disfarçada ponta de inveja.

Bastava ser trabalhador e bom pagador das contas para conceituar-se no seio da comunidade.

Jovino ficou homem trabalhando no barracão: pescava, caçava, botava água, lidava com a arrumação das borrachas. Era um caboclo forte, obediente, não bebia, não brigava nas festas, porém muito acanhado e tímido especialmente quando se encontrava diante de uma mulher, razão porque era alvo de chacotas e zombarias dos outros rapazes e até dos mais velhos. O outro empregado do barracão era o Maneco, um crioulo maduro, viúvo pela terceira vez. Andavam sempre juntos. Maneco advertia:

- Jovino, você carece enchecê muié. Desse jeito acaba abestado como o Artuzin fio do cumpade Joel.

O jovem botava a masca de tabaco para um lado, cuspia e sorria contrafeito mostrando os dentes amarelados:

- Sincomode não seu Maneco, a minha vai aparecê!

Certo dia chegou de muda no seringal e foi morar perto do barracão uma família composta de um casal, três rapazes e uma moça. O pai bebia muito, arrotava valentia e os filhos o seguiam. A mãe, desleixada, passava os dias sentada num caixote cachimbando e cuspindo entre as brechas do assoalho. A moça não era feia mas comportava-se levianamente namorando os homens que encontrava disponíveis. Dentro de poucos dias estava na boca das mulheres da área que olhavam-na com sinais de reprovação e ciúme. Chamava-se Rosita.

- Você viu, cumade Maria, a sem-vergonha da Rosita namorando com o Zezinho da Margarida?

- Diz que no meio da floresta os dois desapareceram um pedação e depois ela voltou toda assanhada!

Rosita encontrou Jovino no caminho, pegou-lhe a mão, disse-lhe palavras amorosas. O rapaz sentiu pela primeira vez o contato feminino e uma rápida transformação operou-se na sua virilidade adormecida. Rosita, sagaz, planejou a inexperiência do rapaz e assim conseguir um casamento. Um dia ele arrastou-a para dentro do mato, ela fez cara de choro, gruniu baixinho sob o corpo trêmulo e desajeitado, depois reclamou:

- Jovino, eu era moça e você me fez mal, vai casar comigo, vou contar pro meu pai!

Saiu correndo e ele ficou tremendo, pálido, sem ação...

Dia seguinte o pai e os irmãos de Rosita chegaram cedo ao barracão. O velho subiu, chamou o Jovino e foi logo dizendo:

- Seu moço, eu vim arresolvê o caso da minha fia. Casa cum ela ou comigo!

"Seu" Abelardo, o guarda-livros, padrinho do Jovino, inteirou-se do assunto, quase não acredita. Chamou o afilhado, ele confirmou:

- Fui eu mesmo, meu padrinho. Vou me casá com ela.

Dona Joana quase morre de desgosto. Queria ver o filho casado com uma moça honesta. O Maneco comentava com os amigos:

- A bicha é escovada, pegou o pobre do rapaz, tolo, inocente. Coitado, num sabe nem o que é honra de moça...

Outros avantavam a possibilidade de uma modificação no comportamento de Rosita depois de casada. "Seu" Abelardo aconselhou:

- Meu afilhado, quando você casar vai trabalhar num centro, leva a família. Quem faz a mulher é o homem.

Casaram-se no juiz de paz do seringal vizinho, sem jantar, sem festa. Foram morar numa colocação distante duas horas do barracão, à margem do igarapé grande.

No começo tudo ia bem. Jovino, satisfeito, trabalhava com afinco para melhorar a vida. Rosita correspondia. Todavia depois de um ano as más notícias começaram a circular: o Pascoal mateiro e corretor de estradas do seringal estava se encontrando com a Rosita. Inventava de caçar e ia direto à casa do Jovino quando este andava cortando. Dona Joana, velha e adoentada, advertiu o filho:

- Tenha cuidado com sua muié, ela num tá sendo dereita, esse tal de mateiro tá andando muito aqui na sua ausença!

Depois tudo bem sabia e olhava o Jovino com ares de piedade. Ele também sabia e engolia os ultrajes com resignação. Gostava da mulher, não queria perdê-la. Rosita negava e ficava cada vez mais diferente. Não tinham filhos, o velho Pedro dizia:

- Ela é maninha, não emprenha não. Muié assim é rede de arrastá a vida toda. Se tivesse fios abaixava o fogo.

O tempo foi passando, o pessoal perdeu a fé no Jovino e foi deixando de comentar o assunto.

Um dia Jovino chegou da estrada, a mãe estava chorando, pressentiu a desgraça.

- Mãe, que foi, cadê a Rosita?

- Foi embora com o Pascoal. Pegaram a canoa e desceram o igarapé na maior sem-vergonhice. Deixou dito pra você que não lhe qué mais não...

- Faz tempo, mãe?

- Uma meia hora, mais ou menos.

Arriou o balde, a estopa, pegou o rifle, o terçado de bainha e saiu correndo pelo varadouro, entrou no mato, cortou a volta do igarapé e esperou na frente. Não demorou a ouvir o chiar do remo e o murmúrio da conversa.

Quando a canoa apareceu na curva, saltou na margem. Não era mais o rapaz tímido e medroso e sua face havia se transformado numa máscara de ódio e vingança. Pascoal ainda tentou pegar o rifle na popa da canoa mas não teve tempo. Uma bala varou-lhe a cabeça e ele caiu n'água deixando uma mancha vermelha na superfície.

- Agora encoste a canoa, sua égua!

Rosita, lívida e trêmula remou pra beira. Jovino, de rifle em riste, mandou que ela caminhasse na frente. Mais adiante falou:

- Vou lhe levar pra casa, não diga nada sobre a morte desse bandido que eu lhe perdôo.

Rosita, refeita do impacto, respondeu enfarenta:

- Num adianta não, Jovino, eu num lhe quero mais não, vou para a casa do meu pai.

Haviam saído da estrada do Zé Luís, o vizinho da colocação. Jovino avistou o pé de açacu, virgem, viçoso. Uma idéia terrível minou-lhe o pensamento. Derribou a mulher na folhagem, rasgou a camisa, atou-lhe as mãos e os pés. Depois cortou vários cipós e amarrou-a numa árvore à beira da estrada. A seringueira ficava ao lado, tirou-lhe as tigelinhas, golpeou o açacu e colheu o leite, cáustico e venenoso. Não deu mais ouvidos aos rogos da esposa. Apenas expeliu um grito rouco, pavoroso, alucinado:

- Não será mais minha nem de ninguém. De hoje em diante todo homem terá nojo de você!

Com fúria rasgou-lhe as vestes e jogou-lhe o leite de açacu nos olhos, no rosto, nos seios, nas partes baixas. Em seguida, colocou o cano do rifle no ouvido e puxou o gatilho...

Rosita ainda ouviu o estampido, o baque surdo no chão e desmaiou.

Dia seguinte o Zé Luís cortava a estrada quando deparou com o terrível quadro. Rosita nua, sem sentidos, era uma ferida só, mas ainda estava viva. O cadáver do Jovino jazia aos seus pés.

Rosita foi levada para a casa dos pais. Depois de longo sofrimento conseguiu sobreviver. Seu Abelardo, o guarda-livros, estava viajando para Belém quando ocorreu a tragédia. Ao regressar, quase não acreditava na ação do afilhado. Foi visitar Rosita: estava cega e deformada. Era apenas um farrapo humano. Consternado, não pôde deixar de externar:

- Nunca se deve subestimar a coragem de um caboclo.

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