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pirilâmpagos



Robélia Fernandes

Domício sente, ainda, no rosto, o ardor dolorido do murro, o sabor de sangue no lábio partido. Tentou defender-se encostando-se à parede, bicho acuado, músculos enrijecidos, braço levantado em escudo. Afinal era à hora do jantar, as irmãs comendo, satisfeitas, o pai presente. Mas a fúria do irmão ao agredi-lo,
, a dureza do golpe atingindo-o em cheio fizeram-no revidar... covarde não era.

Duas forças enfrentando-se. Duas onças rolando no chão, atracadas, gritos e choro das irmãs. Gritos do pai e da mãe tentando apartá-los. Aquietados, enfim, pela visão do velho desfalecendo, num acesso de falta de ar, mãos crispadas no coração numa providencial crise cardíaca.

Ainda ressoam em seus ouvidos os palavrões, ofensas do bate-boca da briga, tremor de ódio nas juras e ameaças do irmão:

- Vagabundo filho duma égua. Ainda te pego de jeito, desgraçado.

Brigavam freqüentemente. Nem pareciam irmãos. Rivalidade. Prevenção, ciúmes, desde meninos quando disputavam as ninharias: o armador da rede, bico do pão, carretéis vazios.

- Safadeza. Por que quer o que é do outro? Se ele tem é porque compra com o dinheiro dele.

A mãe, em defesa do mais velho, vaqueiro empregado na fazenda mais próxima, fazendo fama no laço. Daí os privilégios. Roupas melhores, perfume e até o cordão de ouro, causa da briga. Domício usou-o para impressionar Jandira. Pecado maior. O irmão andava de namoro com ela. Jandira a culpada. Porque então ficava pondo aqueles olhos em cima dele? Parecia que era dele que ela gostava.

Cantam os galos meia-noite. Domício acordado remoendo raiva, alimentando rancor. A mãe, decididamente, não lhe dava razão. Sempre assim. Sempre fechada a qualquer compreensão. Quando menino, os castigos vinham numa tirania de dentes trincados. Agora, homem feito, razão toda do seu lado, ela só sabe dizer que quando um não quer, dois não brigam. E por que ele não respeita o irmão mais velho? O pai, às vezes, intervém. Domício já é um homem. E ela se altera, bate o pé, como desta vez em que o velho, no balanço do acontecido teima em lembrar que Domício não é mais um menino, não podia ser humilhado daquele jeito e ela rebate, estabanada, limpando com a vassoura os cacos dos pratos e restos de comida no chão:

Parido assim porque ele poupa a tua preguiça. Mas se algum dinheiro entra aqui, não é ele quem traz.

Decididamente, a mãe apoiava o mais velho. Talvez essa fosse a forma de vingar-se do marido, rebelar-se contra as repressões antigas, anos e anos ele dando as ordens. Anos e anos metida na roça ajudando um homem que não sabia progredir. Agora a coisa era outra. Com a idade, o velho foi fraquejando a saúde indo embora. A figura dela cresceu, a sua autoridade se impôs, o matriarcado se estabeleceu.

Maneira de vingar-se do marido ou ciúme. Sabia da predileção dele por Domício. Incomodava-lhe a relação harmoniosa entre os dois. Entendiam-se sem muitas falas, sem muitos códigos. Comunicavam-se nas profundezas. Sabiam um do outro. Juntos faziam-se fortes.

Cantam os galos da meia-noite. A discórdia calou-se mas a raiva de Domício crescia na escuridão. Dezoito anos completados, já era um homem, o pai dizia. O irmão era falante, boa conversa, cheio de gabolices. Mas, melhor que ele não era, também quase analfabeto. os ensinamentos da professora da escola rural onde estudaram sem muita frequência só foram até o segundo livro de leitura. Melhor que ele, por quê? Concordava em ser opinioso, caladão, até invejoso como dizia a mãe. Mas parasita, moleirão, preguiçoso, não. Ajudava o pai no trabalho da lavoura, no plantio de feijão na praia, na venda do produto no porto. Por que o irmão tinha a mania de insultá-lo?

Cantam os galos da madrugada. Domício não dorme. Já era um homem, queria romper de alguma forma aquela situação que colocava o pai e a mãe em conflito, acabar com aquela infelicidade. Olhos abertos no escuro, humilhação martelando. Pensando. Vontade de ser alguém, esperança de um futuro melhor. Possibilidade de ajudar o pai a melhorar de vida. Possibilidade de se declarar para a Jandira sem se envergonhar da própria figura, mostrar pra ela que era um homem e não o moleque vagabundo que o irmão diz. Uma idéia vai chegando, clareando devagar, adiantando-se na treva. Humilhação, raiva, orgulho ilhando-se cercados pela indecisão.

Os galos já não cantam. A idéia funde-se em ferro.

- Pai, vou embora. Aqui não cabemos ele e eu.

O pai sem surpresas, atiçando o fogo. Velho hábito do gole de café madrugadinha. Primeiro cigarro.

- Pra onde?

- Sei não. Procurar emprego, sentar praça.

- Sente praça.

Mais conversa não precisou. Mala de couro na mão, poucos pertences, despedidas. A mãe, calada. Experimentando algum desgosto? Não arriscou uma intervençaõ, na face um pensar de poço fundo, na boca a contrição de um Deus-te-abençoe.

- Quando eu voltar é porque tudo deu certo.

Atravessa a porta e se vai num caminhar seguro, sem olhar pra trás. O pai, parado na porta, orgulhoso no peito, fortaleza vindo sabe de onde. Meu filho é um homem.