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Elson Martins

Outro dia li um artigo colocado na Rede de Jornalistas Ambientais, na Internet, contendo informações preciosas para nós que vivemos na Amazônia e sonhamos com o desenvolvimento sustentável. O texto assinado por Dalmo Oliveira informa com base em estudo do Worldwacht Institute, uma organização de pesquisa em Washington, DC, que "a economia ambientalmente sustentável já criou 14 milhões de empregos em todo o mundo, com a perspectiva de outros milhões no século 21". Informa também que muitas novas oportunidades de empregos estão surgindo com a reciclagem e refabricação de produtos, e com a utilização de fontes renováveis de energia. Tem mais:

- Até 2020, a energia eólica (aproveitamento dos ventos) poderá representar 10 por cento de toda a geração de eletricidade e emprego para aproximadamente 1,7 milhão de pessoas no mundo;

- As empresas européias de energia térmica solar já empregam 10 mil pessoas e poderão empregar 250 mil na próxima década;

- O setor mundial de reciclagem hoje processa mais de 600 milhões de toneladas de materiais anualmente, fatura 160 bilhões de dólares e emprega 1,5 milhão de pessoas.

O norte-americano Michael Renner, que coordenou a pesquisa, adverte que, no futuro, "os empregos estarão mais ameaçados onde os padrões ambientais são baixos e onde falta agilidade para inovações em prol de tecnologias mais limpas". Tudo a ver com a nossa realidade amazônica!

Os esforços empreendidos no Amapá, a partir de 1995, e no Acre, a partir de 1998, como se sabe, estão voltados para o desenvolvimento sustentável e contam com as "inovações em prol de tecnologias mais limpas". Mas estas esbarram na lentidão da burocracia oficial brasileira e na política "insustentável" praticada, com alguma exceção, por nossos ilustres representantes no Congresso. Não fosse isso, as comunidades amapaenses que vivem ao longo da costa atlântica e na foz do rio Amazonas (no arquipélago Bailique, por exemplo), já estariam usufruindo de energia eólica farta. E da solar também.

Imaginem se não existissem empecilhos ao aproveitamento "sustentável" das riquezas que a Amazônia possui. Mas que riqueza é essa? A população tem conhecimento dela, ou isso é privilégio dos cientistas e fazedores de teses, e de quem pode comprar livros caros ou navegar na internet?

Eu andei lendo alguns textos e me sinto orgulhoso do nosso patrimônio natural. A Amazônia tem um quinto da água doce do planeta. Possui mais de 3 mil espécies de peixe, quinze vezes mais que em todos os rios da Europa. Dentro da floresta, mantém entre 5 milhões e 30 milhões de plantas diferentes. E a maior variedade de espécies de aves, primatas, roedores, jacarés, sapos, insetos, lagartos e peixes de água doce do mundo. Só mamíferos, são mais de 300. (Revista Veja, edição Especial, 1997).

Aos poucos estamos nos acostumando com a idéia de termos o Acre e o Amapá ligados pelo grande rio Amazonas, um nas cabeceiras, outro na foz do grande rio. Pois bem. Entre esses dois extremos contam-se pelo menos 1 000 rios afluentes, formando uma bacia com a mais fantástica biodiversidade do planeta onde vivem 170 mil índios organizados em 100 associações indígenas. Quando os portugueses chegaram, há 500 anos, existiam no Brasil cerca de 6 milhões de índios falando 1 300 línguas distintas. Sobraram 170 línguas, e a maioria é falada na Amazônia. (Veja, idem).

Estes dados são um breve resumo do potencial conhecido. A maior parte é ainda desconhecida, e tem a que permanece guardada a sete chaves nas gavetas bolorentas das instituições científicas e das universidades brasileiras. De qualquer modo, muita coisa já se lê na Internet.

Isso me faz pensar na necessidade urgente de se adotar na Amazônia uma política sustentável com um discurso sustentável. Acredito que o Acre e o Amapá estão em condições de praticá-la convencendo outros estados da região a fazer o mesmo. Para começar, é preciso "reciclar" o discurso tido até então como progressista, mas que se desqualifica quando empurrado "goela abaixo" nos nativos, sem o enriquecimento da participação destes. A vida na floresta, quer entre os animais ou entre os índios, caboclos e seringueiros é diversificada e pluralista no melhor sentido. Para extrair sua essência e com ela criar um mundo novo, uma sociedade harmoniosa, é preciso trabalhar, como diz o Toinho Alves, secretário de Cultura do Acre, o sentimento em vez do conceito. Neste caso, os modos são outros, a ideologia também.

Voltando ao parágrafo inicial, sobre os empregos do futuro. O título do texto é muito sugestivo: "Preservação do meio ambiente: fábrica de empregos para o século XXI", e oferece mais detalhes para quem acessar o editor do Worldwatch no Brasil, Eduardo Athayde (E-mail: Edu.fib@fib.br). A Internet permite conhecer pessoas e idéias interessantes.