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Para Lourival construir barcos é um dom
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Ele nunca abriu um livro sobre construção naval. Mas garante que nos rios do Acre e do Amazonas trafegaram (e ainda trafegam) mais de 300 barcos feitos com a força dos próprios braços. Aos 77 anos de idade, Lourival Machado concluiu mais uma obra de carpintaria naval: a balsa Vicente Lira, encomendada pela Secretaria Executiva de Hidrovia e Aerovia. Orçada em 49 mil reais, a balsa tem cerca de 20 toneladas e capacidade para transportar cinco vezes esse peso. Ela vai beneficiar os moradores da Reserva Chico Mendes e do bairro Sibéria, no município de Xapuri.
Os longos anos de trabalhos pesados e de uma vida difícil se inscrevem nas linhas das mãos, que calejadas - e ainda firmes - vão ajudando a compor a trajetória de um homem que sempre viveu nos rios. Aos 14 anos, para fugir ao despotismo da madrasta, Lourival Machado embarcou na chatinha "Campina". Morava então em Boca do Acre (AM) e seu destino, ao lado de outros marujos destemidos, era Brasiléia.
Foram 12 dias de viagem e três anos de trabalho no extinto Serviço de Saúde Pública (Sesp). Depois desse período quis o destino que Lourival fosse viver de calafetar barcos. Essa nova função o colocava diante da intrincada engenharia de construção naval, a qual foi aprendendo porque esse era o seu "dom".
A habilidade, porém, não se manifestou no novo ofício, como ele conta: "Desde criança eu fazia botes de madeira com a ponta da faca e vendia para os outros meninos por 400 réis". O peso e o tamanho excessivos da moeda ficaram para sempre na memória do menino artesão.
Para construir a balsa Vicente Lira, cujo projeto é assinado por João Rabelo, Lourival precisou registrar firma e participar de uma licitação pública. Outras quatro pessoas trabalharam no empreendimento, que levou três meses para ser concluído. A iniciativa de passar a um profissional local essa tarefa é resultado da política de geração de emprego e renda do atual governo. "Com isso se valoriza o uso de tecnologia regional", defende o chefe do departamento de Hidrovias, João Taboada, 41.
Taboada lembra que os governos anteriores encomendavam as embarcações de estaleiros de Manaus, desestimulando a economia local e deixando de gerar emprego entre a população acreana. Outro problema é o período de vida útil dessas balsas, que segundo ele é de aproximadamente quatro anos, contra os 20 anos das que estão sendo construídas aqui.
Atualmente, os empreendimentos fluviais são feitos em parceria com as comunidades ribeirinhas. Leva-se em consideração o fato de que grande parte da produção agrícola se localiza nas margens de igarapés. "Os pequenos produtores, apoiados pelo governo, constroem os barcos de acordo com suas necessidades", afirma Taboada.
Inundação
O beijo é a véspera do escarro, e a mão que afaga é a mesma que apedreja, escreveu o poeta. O rio, que sempre havia garantido a sobrevivência de Lourival Machado e sua família, resolveu transbordar. Em 1997 as águas invadiram as casas em Boca do Acre, e Lourival perdeu quase tudo. Resgatado junto com a família, se refugiou no prédio da Capitania dos Portos. "Até o dia em que decidimos tentar a vida aqui", diz ele.
Aos 74 anos de idade se viu acolhido no Terminal Fluvial de Rio Branco, junto com outras 40 famílias. Mais tarde compraria um terreno na invasão do Vitória, onde mora até hoje. Tentou vender peixe, banana e melancia, "mas os outros eram tão carentes que não havia compradores".
Passada a fase ruim, Lourival faz planos para o futuro. Vai continuar se candidatando às obras navais financiadas pelo governo. "Pois é preciso navegar", conclui ele, sem saber que parodia Fernando Pessoa.
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