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Tainá Pires
Fotos: Edison Caetano
Vó Adriana: benzedura e fé em Deus
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A busca da cura através da reza resiste ao tempo, e Adriana da Silva do Nascimento, a vó Adriana, 92 anos, é uma prova disso. Diariamente, ela recebe em sua humilde casa, no bairro do Bosque, pelo menos 15 pessoas, a maioria crianças com quebranto, mau olhado, vento caído.
Lúcida e sorridente, ela relembra o início da vida de amor ao próximo que começou no seringal Antimari, onde morava com os pais e mais oito irmãos, dois dos quais também rezadores. Os pais tinham abrigado em casa sua madrinha de fogueira, dona Maria, senhora já idosa e que além de parteira, era rezadeira. Vó Adriana, na época com 18 anos, achava bonito a madrinha rezando nas pessoas, por isso observava atentamente. E resolveu aprender as benzeduras. Primeiro para dor de dente, depois para dor de barriga, cólica e daí por diante: "Quem cura não sou eu, é Deus. Acho que é um dom porque desde menina já brincava de rezar nas bonecas. O segredo é de Deus", revela.
Aos 30 anos, viúva e com quatro filhos pequenos, vó Adriana teve que cortar seringa e trabalhar na roça. "Eu só não gostava de quebrar ouriço de castanha na mata. Tinha medo de onça", diz ela, lembrando que para sustentar os filhos vendia ou trocava seus produtos com regatões (pessoas que viajam de batelão vendendo mercadorias nos rios).
Convidada por uma de suas irmãs, acabou vindo para Rio Branco. Aqui, lavou roupa para fora, cuidou de crianças e vendeu verduras para sobreviver. Nunca, porém, cobrou para rezar. "Eu não vendo a palavra de Deus", explica vó Adriana.
Aposentada, ela hoje faz doce ou refresco para vender. Mas a maior parte de seu tempo é dedicada às pessoas que a procuram em busca de rezas - geralmente mães com bebês. Quando isso acontece, vó Adriana pega o seu raminho verde, de preferência vassourinha, brinca com a criança enquanto a mãe conta os sintomas, e concentrada, começa a rezar baixinho. "Hoje rezo nos meus filhos de umbigo, crianças que ajudei a nascer. Quando não agüentar mais, vou ensinar alguém para continuar essa caridade", conta.
Jerônima Francisca Pereira, 60, mais conhecida como Suzana, também faz suas rezas desde a adolescência. Natural de Jataí (GO), chegou ao Acre em 1975 para ser caseira numa fazenda localizada na BR-317, e descobriu quase por acaso que tinha o dom das rezadeiras. Ela conta que sua avó ficou gravemente enferma e um dia, ao visitá-la, colocou a mão na cabeça da doente e disse que iria curá-la. Fechou os olhos e enquanto rezava em voz baixa, a avó confessou o alívio que estava sentindo.
Hoje ela é a rezadeira mais popular entre os moradores das redondezas do município de Capixaba. Além de rezar em crianças e adultos, Suzana é parteira e faz doces caseiros, sua principal fonte de renda. "Eu rezo mas não acredito, apesar de as pessoas dizerem que as minhas rezas funcionam", conta.
Ela também receita remédios caseiros aos "pacientes" - geralmente peões de fazenda, seringueiros e colonos - que a procuram no Km 90 da BR-317. A maioria vem nos finais de semana para ser atendida na modesta casa de madeira cercada de plantas, algumas medicinais, onde mora sozinha.
Outra rezadeira que dedicou a vida a ajudar as pessoas é Raimunda Odília da Costa, 75 anos, apelidada carinhosamente de "mãe Nosa" e conhecida como mulher de coração bondoso que dedicou boa parte da vida a cuidar de idosos no Lar dos Vicentinos.
Pernambucana de Limoeiro do Norte, ela recebeu de sua avó um livro de orações, enrolado numa fronha de travesseiro cuidadosamente costurada. A avó disse que daria o livro à neta que soubesse ler e que o guardasse para sempre. A contemplada foi mãe Nosa. Mas como seu pai não queria que utilizasse o livro acreditando que as doenças curadas passariam para ela, Nosa foi obrigada a esconder o livro durante seis anos. Só em 1952, quando veio morar no Acre, no seringal Triunfo, depois de 11 dias vendo o sofrimento de uma criança doente, lembrou do livro e finalmente resolveu utilizá-lo. A menina foi salva e mãe Nosa reza até hoje.
Um dos casos marcantes na vida de mãe Nosa é o de um jovem que não acreditava na cura através da reza. Um dia ele estava cortando seringa e caiu sobre um tronco pontiagudo. Gravemente ferido, perdendo muito sangue, não resistiria à viagem até a margem do rio, que demorava 22 horas. Assim, foi para a casa da rezadeira, que não tinha sequer cama para oferecer ao doente. Curado em pouco mais de um mês, ele passou a acreditar nas orações.
Para Pascoal Magalhães, 79 anos, a cura depende da fé mas muitas vezes pessoas sem fé são curadas para servirem de exemplo. Rezador há 61 anos, seu Pascoal dispensa os ramos e prefere rezar usando apenas as mãos.
Nascido e criado no seringal Santo Antônio, a três horas de barco do município de Manoel Urbano, o rezador lembra que só visitava a cidade nos finais de semana, quando ia vender peixe. Em uma dessas viagens, acabou conhecendo um senhor chamado Francisco Rosa, que lhe ensinou algumas rezas. Ele conta que no início a família não gostou mas depois acabou aceitando.
A primeira vez que curou alguém foi num dos finais de semana que passou em Manoel Urbano, onde hospedou-se na casa de uma prima. Na ocasião, a filha dela estava muito doente e apresentou repentina melhora após a oração. Daí em diante seu Pascoal procurou mais ensinamentos em livros específicos.
Rezas e plantão
As rezadeiras são referenciais em suas comunidades e muitas se dispõem a atender os pacientes fora de hora. "A hora que chegar eu rezo", afirma dona Lúcia Pereira de Souza, 73 anos, 60 dos quais dedicados a fazer partos e rezas. No Conjunto Esperança, onde mora há 15 anos, a vizinhança toda já sabe: precisou de dona Lúcia, é só procurá-la.
Lúcia e Raimunda: rezas em voz alta e livro
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Foi com um rezador de plantão no Ceará, que a atendia para curar de fortes dores de cabeça, que aprendeu a rezar. "Ele fazia as orações em voz alta e eu acabei aprendendo", relembra.
Ao retornar ao Acre colocou em prática o que aprendera, mas descobriu que cada doença tem uma oração diferente. Graças à superstição de outras rezadeiras, que não podiam rezar nos próprios filhos por acreditarem que a reza não teria eficácia, aprendeu novas orações. "Dizem que reza de homem pra homem, mulher pra mulher ou mãe pra filho é fraca, mas isso é ilusão", garante.
Aposentada, não gosta que falem em pagamento por reza. Sua maior recompensa é a gratidão que recebe desde os tempos em que morava na colônia. Na cidade, Lúcia sente que aprender o ofício de rezadeira não interessa às pessoas. Mas diz que pretende ensinar, quando estiver mais idosa, tudo o que aprendeu a uma das filhas ou a um dos netos. "Dizem que se você ensinar para alguém, sua reza perde a força", acredita.
Quebranto
Mau olhado, quebranto, vento caído. Para as rezadeiras, todo mal de reza surge dentro ou fora do âmbito familiar. Elas acreditam que o quebranto, por exemplo, origina-se do "excesso de amor" ou "amor caduco" na família. Já o mau olhado se explica pela ação de um agente externo, e o vento caído é o resultado de sustos ou medos fortes sofridos pela criança.
Muitas mães, mesmo sem acreditar, acabam procurando a ajuda dessas mulheres quando não encontram sucesso em outros tratamentos. É o caso da pequena empresária Natália Pereira Pessoa, moradora do bairro São Francisco. Sua filha de um ano e oito meses já havia ficado hospitalizada durante dez dias, mas só ficou curada quando resolveu atender ao pedido de uma amiga e levar a criança para que vó Adriana rezasse. "Agora, vou primeiro em vó Adriana. Depois, se necessário, levo ao médico", garante Natália.
A cantora Verônica Padrão também conhece o poder das rezadeiras. Ainda quando morava na ilha de Fernando de Noronha (PE), seu pai, Albino Padrão, foi curado de uma erisipela, conhecida aqui como "vermelhão". Ela lembra que a rezadeira pediu ao pai para que nunca mais comesse carne de nenhuma ave. Mas 16 anos depois, seu Albino descumpriu a promessa e acabou adoecendo novamente.
Verônica acredita que as rezadeiras são pessoas especiais, que servem como instrumentos para minimizar os problemas e angústias das pessoas. Suas duas filhas, uma de 18 e outra de 16 anos, desde pequenas são levadas às rezadeiras. A mãe, é categórica: "Sempre funcionou".
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