CAPA
Viver de Oração
Preto no Branco
Navegar é preciso
Taocá
Tempo a carroça
Amazônia
Um discurso "reciclado"
História das Margens
O velho e o rio
Ensaio Fotográfico
Dalmir Ferreira
Entrevista
A rua é o meu lugar
Conto
Cantam os galos
Poesia
Nobreza
pirilâmpagos



Evaldo Ferreira

A mãe de Taocá morreu quando ele ainda era bem pequeno e o que lhe ficou na lembrança foi a cremação dela. Segundo o ritual Waimiri Atroari, a cremação não deixa que a alma do morto fique sofrendo. Do pai ele não lembra mas, mesmo órfão, sua criação não teve problemas. Vivia numa maloca com várias famílias onde os adultos eram responsáveis e cuidavam dele como cuidavam de seus próprios filhos.

Assim foi o início da vida de Taocá, um índio Waimiri que, se calcula, nasceu em 1943 e seis anos depois viveu uma aventura que mudou radicalmente o resto de sua vida.

O pajé como mestre

Por ser órfão, o pajé da aldeia se tornou mestre e protetor de Taocá e com o pequenino índio caminhava pela floresta ensinando-lhe os segredos da mata, dos animais, dos espíritos e de ericuã-maré, o espírito bom. Como, geralmente, essas caminhadas eram feitas à noite, daí adveio o seu nome que na língua dos Waimiri significa noite.

Índio não se preocupa em contar o tempo e consequen-temente com a idade, por isso Taocá acredita que com cinco ou seis anos aprendeu a fazer arcos e flechas e, diferente dos outros meninos de sua idade, estava sempre em companhia dos guerreiros nas caçadas e pescarias. Foi numa dessas andanças que sua vida sofreu a transformação.

Na década de 40 os brancos já começavam a invadir as terras dos Waimiri Atroari (nordeste do Amazonas e sul de Roraima). Nessa época, apesar de falarem a mesma língua, os dois povos ainda eram distintos. Começaram nesse período os primeiros embates e as primeiras mortes entre índios e brancos com estes matando aqueles e vice-versa.

Um dos massacres

Uma tarde, no ano de 1949, os índios foram desenterrar ovos e caçar tartarugas, e pescar com arpão, arcos e flechas em uma praia do outro lado do rio Alalaú. Taocá só sabe dizer que eram muitos, talvez mais de 70 índios. Por volta das 16 horas, ao se prepararem para voltar, avistaram um barco que subia o rio e parou a alguma distância da praia. De lá os ocupantes do barco acenaram. O pajé falou aos índios para se precaverem e lembrou que há alguns dias haviam matado uma família de brancos que estava morando naquela região e aquilo poderia ser vingança. Começou a escurecer. Os índios, com medo, não tiraram os olhos do barco que permaneceu no mesmo lugar, agora com uma luz acesa. Quando escureceu totalmente, pegaram suas canoas, guardadas num igarapé próximo, e seguiram para a aldeia. Não demorou para fortes luzes serem focadas sobre eles e tiros, muitos tiros, derrubarem n'água vários corpos. O massacre durou apenas alguns minutos, mas o suficiente para dizimar o grupo. O pequeno Taocá, mesmo sem saber nadar, se atirou n'água e logo recebeu uma remada nas costas porém, o mesmo remo que o atingiu, foi usado para que ele se segurasse. Puxaram-no para dentro de uma outra canoa, esta ocupada por brancos. No barco, entre os brancos, um negro lhe apontou a espingarda e, segundo Taocá, disse: "Este vai morrer que nem os outros", mas o chefe dos brancos se colocou à sua frente e completou: "Não. O menino, não". O mesmo homem que ajudara a trucidar os parentes de Taocá, agora salvara a vida dele. Ramiro era o nome desse branco.

Pela manhã Taocá ainda viu os corpos de dois índios boiando no rio. Sua mente de criança, apesar de estranhar, não deixou que entendesse o que se passava. Para que não se atirasse nas águas, Ramiro o amarrou, com as mãos para trás, num dos paus do barco que seguiu viagem. Só depois de dois dias ele foi solto. Taocá não sabe quanto tempo o barco navegou, mas calcula em dois meses. Durante esse tempo os homens caçaram jacarés até encher com couros o porão da embarcação e Ramiro, com paciência, cuidou dele, dando-lhe peixe com farinha, a única comida que aceitava, banhando-o e tentando fazer com que usasse roupas, que eram logo tiradas e deixadas de lado. Certa noite, com frio, conseguiu fazer uma pequena fogueira, assustando Ramiro que correu para apagá-la, cobrindo-o com um cobertor, que ele não conhecia, para não sentir frio.

Fim da viagem

Quando finalmente o barco atracou no porto de Manaus, atrás do atual porto de Aparecida, foi invadido pela polícia e Manoel da Rocha Viana, chefe do S.P.I. (Serviço de Proteção ao Índio, transformado na Funai em 1969) acompanhado por uma intérprete. Taocá acredita que alguém o viu no barco, o reconheceu como sendo índio, pois usava os cabelos compridos, diferente dos meninos da época e, não sabe porque, denunciou ao S.P.I. Ele já se acostumara a usar uma calça. A intérprete conseguiu conversar e descobrir um pouco da sua curta e tão agitada história. Foi retirado do barco sem entender porque o levavam de um lugar para outro. Seus ex-algozes, que eram mais ou menos uns seis homens, haviam desembarcado em Manaus e sumido.

O chefe do SPI

Manoel Viana tinha uma filha de 15 anos e cuidou de Taocá como se fosse seu filho. Acrescentou Antônio ao seu nome, o ensinou a falar o português, a comer com talheres, a lavar-se com sabonete durante o banho, a usar roupas. Cortou seus longos cabelos e o levava a conhecer a cidade. Taocá gostava de passear de carro e, quando queria fazê-lo, ainda não sabendo determinadas palavras, imitava o barulho do motor. De uma feita, Manoel o levou a um restaurante e, perguntado sobre o que queria comer, pediu carne de anta. Com a intenção de testar a inteligência do menino, sem que ele percebesse, Manoel pediu carne de vaca ao garçon. Nem bem deu a primeira mordida na carne e Taocá a cuspiu longe, reclamando não ser de anta. Manoel concluiu que tinha um menino muito inteligente sob seus cuidados. Taocá, por sua vez, começava a perceber que a nova cultura era muito diferente da sua e estava de portas abertas para a sua curiosidade de menino. Como a grande maioria dos garotos brasileiros, a brincadeira preferida de Taocá era o futebol e "bola" foi a primeira palavra em português que pronunciou. Durante quase um ano morou no S.P.I., um prédio que ficava em frente ao atual Colégio Militar e lá aprontou muitas artes, ora de menino da cidade, ora de menino índio, como quando seu instinto de caçador falou mais alto e ele quis flechar um gato achando ser um jaguar.

Quando, em 1950, Manoel se mudou para o Rio de Janeiro, Taocá já era um outro menino. Na então capital do país freqüentou colégios, conheceu a discriminação pela primeira vez, ficou adulto sempre sofrendo discriminação, serviu o Exército, foi feirante, casou, teve filhos e nunca esqueceu o pouco que aprendeu da língua e dos costumes do seu povo.

Em 1983 Taocá voltou para Manaus e foi trabalhar como chefe de posto na reserva dos Waimiri Atroari. Lá, tentou se reintegrar ao seu povo, mas eles não o aceitaram. Discriminado no mundo dos brancos, onde Manoel Viana nunca o adotou ou mesmo providenciou a sua documentação, talvez para que ele não tivesse os mesmos direitos de seus filhos legítimos, e discriminado por sua etnia, onde alegaram querer ele parte do dinheiro que hoje o povo possui, Taocá é um homem simples, que não demonstra rancor quando fala dos Waimiri Atroari e de Manoel Viana, a quem chama de pai. Sua ingenuidade chega a parecer com a do menino Taocá, que há 51 anos teve todos os seus parentes mortos e depois foi obrigado a viver em um mundo onde todos o chamavam de índio para humilhá-lo.

Atualmente Antônio Taocá trabalha na Funai, em Manaus, onde realiza serviços burocráticos e seu sonho, passados mais de 50 anos de uma trágica história que ele conta como se tivesse acontecido ontem, não é ser aceito no mundo dos brancos, mas sim ser reconhecido índio pelo seu povo.

A comprovação

Vestígios do passado de Taocá foram encontrados na região da reserva Xixuáu-Xiparanã, a 100 km ao norte do rio Negro, entre as bacias dos rios Jauperí e Branco, na fronteira dos Estados de Roraima e Amazonas. Lá, os moradores mais antigos, apesar do tempo, conhecem muito bem a história de Taocá. Francisco Libânia, 44, atualmente morando na comunidade São Pedro, no lado amazonense, no rio Jauperí, contou que seu pai foi um dos homens que participou da chacina dos Waimiri Atroari. Ele não sabe ao certo o ano em que tudo ocorreu e tomou conhecimento da história através do próprio pai e dos outros participantes, moradores da região. "Chico", como é conhecido, disse que o massacre foi praticado por cerca de 15 homens que o promoveram por pura maldade contra os índios. Tudo aconteceu na praia do Marau, e confirmando o que disse Taocá sobre a quantidade de índios no local, ele afirma que morreram uns 60. Dois brancos, segundo os jornais da época, foram mortos entre os índios. Duas mulheres faziam parte do grupo de homens (o que é negado por Taocá) e foram elas que, segundo "Chico", salvaram o pequeno Taocá, não deixando que os homens o matassem. "Chico" diz que houve muitos problemas para os 15 envolvidos na morte dos índios. Pouco tempo depois do ocorrido, eles foram presos e seguiram para a penitenciária de Manaus, sendo soltos cerca de um mês depois sem nunca terem sido julgados pelo crime. Todos, hoje, estão mortos.

Os Waimiri Atroari

Um dia os Waimiri e os Atroari foram povos distintos, embora falassem a mesma língua. No século 19 eram seis mil indivíduos.

Nos anos 40 os brancos começaram a invadir suas terras e aconteceram as primeiras mortes de ambos os lados.

No final dos anos 50 teve início a construção da BR 174 (Manaus-Boa Vista), que no futuro iria passar pelo meio das suas terras. No primeiro contato com sertanistas da Funai, somente uma de suas aldeias tinha mais de 1.500 indivíduos.

No final dos anos 60 a BR 174 chega às terras dos Waimiri Atroari. Naquela época eles perambulavam pela floresta na área onde hoje se situa o município de Presidente Figueiredo e uma de suas aldeias ficava onde hoje se situa a vila de Balbina.

Nos anos 70, mortos pelo contato com os brancos, assassinados e doentes, chegaram quase ao extermínio, sobrevivendo apenas 350 indivíduos.

Somente nos anos 80 a população dos Waimiri Atroari voltou a crescer, e no final dos anos 90 já eram mais de 800, mas eles chegam ao ano 2000 cada vez mais distantes de sua cultura.


Antonio Taocá queria ser reconhecido pelo seu povo



Desde 1986 vem sendo desenvolvido na Terra Indígena Waimiri Atroari um programa com ações nas áreas de saúde, educação, apoio à produção e proteção ambiental. Fruto de um convênio entre a Funai e a Eletronorte, o Programa Waimiri Atroari surgiu como parte de uma série de ações mitigadoras à inundação de 30 mil hectares de terras indígenas pela UHE Balbina. Esse programa, que tem duração de 25 anos e é financiado pela Eletronorte, inclui atendimento médico e controle epidemiológico dos índios, alfabetização na língua materna, implantação de escolas, criação de animais silvestres e outras ações. O trabalho conta com o apoio e a experiência do sertanista José Porfírio de Carvalho.


Convênio garante apoio para as aldeias

Segundo dados do Programa Waimiri Atroari, antes de 1986, a população dos Waimiri Atroari era de aproximadamente 374 pessoas, com uma redução populacional avaliada em 20% ao ano. Os índios desconheciam a linguagem escrita, sofriam com constantes epidemias de sarampo, malária e gripes, além de conviverem com a subnutrição e a falta de vacinação nas aldeias. A terra, até então, não era delimitada (nem demarcada) e sofria um processo crescente de invasão. As principais manifestações culturais do povo estavam sendo deixadas de lado.

Essa situação começa a mudar com a execução do Programa Waimiri Atroari. Hoje, o crescimento populacional dos Waimiri Atroari é de 7% ao ano (com uma população estimada em 784 pessoas no final de 1998). Mais de 35% da população foi alfabetizada, graças à instalação de 17 escolas com 26 professores indígenas trabalhando. Nos últimos oito anos não foi registrada nenhuma doença imunoprevenível. A terra foi demarcada e homologada. E as práticas culturais começam a ser resgatadas.


População Waimiri Aproari cresceu nos últimos anos