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Abraão evitou que a escola fosse saqueada



Archibaldo Antunes
Fotos: José Diaz

O cenário é bucólico. No chão de terra batida correm crianças, ciscam galinhas e rodam os carros-de-boi. As primeiras casas do vilarejo estão de frente para o rio Acre. Não há cercas separando os quintais, onde os moradores cultivam mandioca e urucum. É sexta-feira, mas as horas parecem não impor regras aos que limpam a casa ou descascam macaxeira para fazer farinha. Fosse quarta ou domingo, os gestos continuariam lentos, a fala teria a mesma tranqüilidade de agora. Até o sol demora a se pôr nesse fim de tarde no Belo Jardim.

O local fica a apenas meia hora do centro de rio Branco, pela BR-364. Mas a viagem parece um recuo no tempo, de tão rústica é a vida por lá. Um ramal de seis quilômetros liga a rodovia ao vilarejo. O negócio mais promissor do Belo Jardim é uma pequena fábrica de colorau, com faturamento líquido mensal de 900 reais. É do produto que Wagner de Souza Menezes, 29 anos, tira o sustento da família. Com a ajuda do cunhado Leandro Mangolim, 21, Wagner produz mais de meia tonelada por semana. Os pacotes de 30 quilos são entregues em dois supermercados e 14 mercearias da capital.

Houve uma época em que o colorau, como a farinha de mandioca, sustentava muitas famílias no Belo Jardim. Sebastiana de Souza Menezes, 53, mãe de Wagner, chegou ao vilarejo há 15 anos, e junto com o marido aprendeu a tirar colorau da semente de urucum. Como a farinha, o produto, porém, se desvalorizou com o aumento da oferta. Sebastiana, ao contrário do filho que tem compradores certos, reclama que nos mercados já não se vende o quilo a um real e 50 centavos, como antigamente.

Vizinhos de Sebastiana, os Farias também desistiram de levar a produção de farinha para vender na cidade. Agora a família se reúne em torno do ralador apenas quando o produto está em falta na despensa. Da época farta, Francisco Costa Farias, 67, tem muitas lembranças e uma triste seqüela: o olho esquerdo foi completamente cegado por uma lasca de mandioca. O neto, Artur, de três anos, perdeu um dedo quando o pai triturava colorau. "Foi um rápido descuido meu, e ele meteu a mão no ralador", conta José Farias.

A falta de mercado para a farinha obrigou a população local a buscar alternativas econômicas. Raimundo Farias, 28, foi o único a arrumar emprego de funcionário público. Hoje ele leciona para as crianças de 1ª a 4ª série. Os sete irmãos continuam vivendo da agricultura.

Maria Raimunda Farias, 30, além de agricultora, é a presidente da Associação de Moradores do Belo Jardim. Segundo ela, a maior parte das 135 famílias que vivem no local reivindica melhorias no posto de saúde e a piçarragem do ramal. "No inverno a gente fica sem transporte porque o ônibus da empresa São Judas Tadeu não tem como entrar aqui", diz. Quem tem barco pode descer o rio, rumo à cidade. Quem não tem é obrigado a ficar em casa ou encarar o lamaceiro até a margem da BR.

A vice-presidente da Associação de Moradores culpa o Departamento de Estradas e Rodagens do Acre (Deracre) por não cumprir a promessa de piçarrar o ramal. O serviço, segundo Antônia do Nascimento, 50, deveria ter sido concluído em setembro.

A responsável pela coordenação dos serviços de ramais do Deracre, Maria Letícia Rosa dos Santos, 38, nega que o órgão tenha descumprido o acordo com a comunidade. "Foi acertado que eles achariam a piçarra e o Deracre faria o serviço", disse Letícia. "Nós cumpriremos a nossa parte ainda neste ano, assim que pudermos enviar as máquinas para lá".

Em 2002, o governo do Estado vai promover melhorias na saúde, educação e transporte do Belo Jardim, segundo o secretário de Educação, Arnóbio Marques.

Das mudanças propostas pelo governo, uma começa a tomar corpo. A escola de 1º grau Santo Antônio recebeu uma remessa de telhas de Campo Grande (MS). Elas precisaram ser fabricadas lá para que se mantivessem as características arquitetônicas da escola, construída na década de 1940 graças aos esforços do senador Guiomard Santos.

A escola recebeu dinheiro de um convênio firmado entre o Ministério da Educação e o Banco Mundial. Arnóbio Marques esteve no Belo Jardim para discutir as regras do repasse, que tinham como exigência a manutenção das características originais do prédio.

Zelo de mestre

A escola Santo Antônio foi construída para abrigar os hansenianos que hoje vivem no leprosário Souza Araújo, na BR-364. Em 1970, o governador Wanderley Dantas modificou a estrutura do leprosário, para que recebesse os primeiros alunos do Belo Jardim - o que só aconteceria cinco anos depois.

Outros cinco prédios foram erguidos no local, sem que o governo lhes garantisse funcionamento imediato. "Aconteceu que os antigos moradores daqui, que haviam se mudado para a cidade, voltaram para saquear a madeira do forro e as instalações elétricas e hidráulicas", conta Francisco de Santana Soares, 45, mais conhecido por Abraão. Ele deu aula para a primeira turma, em 1975. Um ano depois, com a ameaça de saque na escola, Abraão acumulou a função de vigia. "Eu tinha que ficar, porque senão eles arrebentavam tudo e as crianças ficariam sem estudar", diz ele.

Com a ajuda dos moradores, portas e janelas foram improvisadas para impedir a entrada dos saqueadores, e Abraão só deixou de dar plantão no local quando o perigo acabou.

Atualmente, ele anda preocupado em reconstituir a história do Belo Jardim. Para isso está orientando seus alunos para que entrevistem o morador mais antigo do vilarejo. Aos 82 anos de idade, Cândido Teixeira de Oliveira, ex-vigilante da escola Santo Antônio, vai contar como e porque saiu do Amazonas para se tornar soldado da borracha nos seringais acreanos. "Esse trabalho termina em novembro", diz o professor.