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O velho e o rio

Como é grande essa floresta / é maior a solidão / dessa vida passageira / nesse verde sertão. Vou seguindo pela vida /varejando de ubá / todos os rios dessa terra / unidos chegarão ao mar.

(Rainha da Floresta - Pia Vila, Terry Aquino e Felipe Jardim)

O sol arde alto no céu e enche as águas turvas do caudaloso rio com seus reflexos mais luminosos. O vento permanente que sopra apertado entre os barrancos altos traz os cheiros da floresta imensa, inesgotável, impenetrável. A canoa feita do melhor cedro dessas matas atesta a excelência da antiga arte Apurinã de construir embarcações ágeis e velozes. Não menos ágeis são os braços do corpulento índio que em pé maneja o varejão com insuspeita habilidade. Mas de todos os quatro homens que cortam o rio ao arrepio da corrente o que mais chama a atenção é justamente o velho que viaja na frente da canoa. Seus olhos serenos e experientes avaliam o mundo que o cerca e refletem uma compreensão rara da floresta, do rio, dos homens e de suas respectivas mudanças.

Subitamente cruza com eles um moderno vapor descendo a correnteza em marcha acelerada, já que o rio está vazando rapidamente e o comandante teme não ter água suficiente para continuar a viagem. O velho segue com os olhos as espumas deixadas pelas rodas laterais do vapor à flor d'água e sente o banzeiro balançando a pequena canoa com violência. Seu rosto se contrai numa expressão preocupada. Esse vapor carregado com borracha como está, na velocidade em que vai, corre o risco de não passar daquele tronco de cumaru que está submerso a meio metro de profundidade no meio do estirão por onde a canoa acabou de passar.

Mais tarde se saberia que o velho estava certo e que aquele apressado vapor conduzido por um prático inexperiente havia naufragado com sua preciosa carga, aumentando ainda mais a lista das derrotas na navegação do mais rico dos rios acreanos. Por isso o velho era tão respeitado. Não havia comandante de vapor ou batelão que não quisesse lhe ter embarcado, garantia de uma viagem tranquila e rápida. Não podia haver quem conhecesse mais das manhas e manias daqueles rios indomáveis. Mas esse era um privilégio cada vez mais raro, o velho agora viajava muito pouco em vista do que fizera durante toda a vida.

Finalmente o peso da idade começava a atingir seu corpo rijo apesar de possuir ainda enorme vitalidade causando uma impressão de força que raramente se encontra em pessoas sabidamente tão velhas. Talvez fosse por isso mesmo que existia tanta curiosidade acerca de sua idade. Toda vez que lhe perguntavam quantos anos tinha não conseguia esconder um sorriso sutil e profundo. Por isso cada um lhe atribuía uma idade diferente. Uns diziam que tinha oitenta anos, outros arriscavam noventa e havia mesmo aqueles que diziam ter o velho mais de cento e vinte e cinco anos. Mas ele silenciava sempre. Não porque quisesse construir algum mistério em torno de sua vida, mas porque, na verdade, não sabia mesmo. Isso foi uma das poucas coisas que nunca conseguiu aprender na vida: ler e escrever. Como diabos poderia saber quando foi que nasceu? Talvez tivesse mesmo tantos anos quanto lhe atribuíam.

É certo, entretanto, que o seu mundo havia mudado muito em pouco tempo. Ele havia conhecido esses rios em um tempo em que só os índios perambulavam por essas terras, senhores absolutos de suas matas e seus mistérios.

Com seu jeito amigável, aparentemente desinteressado, o velho, quando ainda moço, tinha conquistado a amizade dos Purus-purus, dos Apurinã, dos Jamamadi, dos Canamari, dos Manchineri, dos Capechene. De forma geral, todas as bravas nações que dividiam o farto território dos altos rios conheciam a fama do Tapauna Catu, o preto bom no dizer daqueles povos antigos. Por isso estavam sempre dispostos a ajudá-lo na subida das cabeceiras, nas varações que o permitiam passar de um vale a outro. Tornou-se, assim, o único a conhecer os caminhos dos rios Purus, Ituxi, Mucuim, Pauini, Aquiri, Xapuri, Abunã, Madeira, Iaco, Caeté, Aracá, Envira, Tarauacá, Juruá e outros inumeráveis e inomináveis cursos d'água e igarapés.

Assim, se tornou o principal responsável pela alteração radical da vida nessa região. Suas viagens abriram caminho para a chegada de milhares de homens estranhos que somente queriam cortar a casca das árvores para delas tirar seu sangue branco. Suas explorações e informações, que outros escreveram por ele, guiaram aventureiros de todas as estirpes na subida dos altos rios e na abertura dos imensos seringais, verdadeiros garimpos vegetais, que fizeram fortunas e desgraças da noite para o dia.

Hoje era só isso o que se via: um enorme tráfego de embarcações, balsas enormes formadas por pélas de borracha descendo as águas, vapores barulhentos e fumacentos apitando a cada barracão de seringal, coronéis de barrancos que ditavam leis, seringueiros impaludados e solitários em suas isoladas colocações e, o que mais lhe doía, pálidas imagens das grandes nações indígenas de outrora agora enfraquecidas pelas doenças dos brancos e pelo trabalho rude nos seringais.

Tudo isso se podia ler no olhar limpo daquele velho homem que mais uma vez subia o grande rio que ajudara a desbravar. Talvez fosse sua última viagem, mas isso não lhe importava. Simplesmente porque acreditava que por mais que as coisas tivessem mudado o mundo ainda era o mesmo.

Mas o velho homem estava finalmente enganado. Ele próprio havia mudado. Agora ele era mais que um simples homem, seu nome pertencia ao reino das lendas e jamais poderia ser esquecido: Manoel Urbano da Encarnação.

Talvez ele ainda viesse a ter o mesmo destino dos mais velhos e sábios índios dos altos rios que conheceu: um dia, ao fim da vida, entrar na mata, se encantar e virar Mapinguari.

* A passagem acima descrita é ficcional, ainda que perfeitamente possível. Porém, as informações acerca da vida de Manoel Urbano da Encarnação são históricas.